Prólogo

O ATOR E AS CIDADES

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

.....................................

A arte do ator é feita de chegadas e partidas, a cada cidade uma nova experiência, em cada uma ele deixa um pouco de si e leva um pouco de tudo: rostos, risos, lágrimas, histórias, vivências, sensações. O trânsito, a mobilidade é a pátria do despatriado ator, vagar entre culturas, costumes e tempos diferentes é sua sina e paixão, pois ele se compõe e recompõe de cada momento. Tolo é aquele que pensa que a arte morre, tem seu lugar determinado por marcas geográficas, por cronologias... a arte foge de todo e qualquer enquadramento, não cabe no mapa, pois é cigana, não (re)conhece fronteiras, ela se constitui a partir do trânsito, do vagabundear do ator, seu veículo. Em sua carne e expressões ela ganha corpo e reflete os rostos de todos os homens de todos os tempos, arguta e criativa, ela mimetiza o mundo e esse seu habitante conturbado, o Homem e é adsorvida por ele.

A 24ª Semana Luiz Antônio traz a criativa itinerância que brota da releitura de grandes clássicos, de personagens que vagaram pelo mundo e foram incorporando os novos tempos, as novas cidades e estéticas. Em seus corações pulsam as lembranças da origem, mas em suas vestes o novo, o arrojado trânsito por locais insondáveis. E como diz o poeta:


a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa.

Ferreira Gullar



Evoé! e muita Lu(i)z...



Flávia Marquetti



sábado, 25 de junho de 2011

UM OLHAR ARROJADO SOBRE VALSA Nº6


                                                                               Fotos: Lívia Cabrera

Nelson Rodrigues com nova roupagem, esta foi a proposta da Cia Labirinto, de Matão, para o monólogo Valsa nº 6. O grupo optou por multiplicar as imagens de delírio de Sônia, ao invés de uma atriz, quatro, ou melhor, oito atores em cena. Não só a personagem Sônia foi fragmentada na atuação, mas também os demais personagens que povoam o que parece ser seus últimos momentos de consciência.

Usando uma indumentária bastante interessante, que mescla o vestido branco da jovem de 15 anos, na parte inferior, com sutiãs retrô (primeiro branco e depois vermelho) na superior, o grupo buscou fundir o público/social e o íntimo na imagem de Sônia; aliando ao branco pérola e ao vermelho, o figurino negro dos demais atores, que surgem como figuras espectrais e dominadoras: a Mãe, o Pai, o Doutor, os Vizinhos (tão caros ao autor).

O cenário, composto apenas de biombos móveis, recobertos de fotos e algumas peças de roupa, contribuiu para criar a sobreposição de imagens que ocorrem à lembrança da personagem e se embaralham ao longo do texto, solução eficaz e simples. O tom histérico conferido ao personagem pede um pouco mais de estudo, não da proposta, mas de como levá-la à cena, lapidação nas tonalidades de voz e movimento, que poderiam enriquecer as interpretações, mas que no todo, conseguiram nos inserir no universo atormentado de Sônia, repleto de vozes e olhares.

Um problema enfrentado pelo grupo, ao usar o Teatro Wallace, foi a decoração das paredes na platéia, que pedia um pano negro para não interferir na cena, uma vez que os locais habituais: palco e platéia, foram invertidos.

Flávia Marquetti

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sonhos para vestir


                                                                                Fotos: Lívia Cabrera

Quem disse que viver é melhor que sonhar? Ontem, vestido de sonhos adormeci tecido de palavras. VIVER É COMO SONHAR. Essa sensação retorna quando vejo Sara Antunes rodando a leveza de seu corpo e a delicadeza de suas perguntas... O céu de estrelas bordadas de palavras... A cama, o lençol, o carretel, a linha, as taças, a jarra, a água, um chá e dois cafés... A música. Ah, a música! Ontem havia música, dança e um vestido de vestidos. Uma caixa prateada, a roupinha de criança e uma parede de lembranças... Uma barriga de lembranças. A mãe, a mesma que deu Negrinha à luz que não era mais de velas... Luzes de pequenas lâmpadas embrulhadas em algodão bordado de palavras. A interpretação e a direção eram outras. Eram outras as mãos que teceram Sonhos para Vestir. Vera Holtz. Analu Prestes. Paulo Cesar Medeiros. Kabila Aruanda. Daniel Valentini. Mary Kunha e Sara Antunes dançando seu vestido de vestidos... Ontem Sara Antunes rodou perguntas tecendo histórias... Palavras, palavras, palavras... Que palavra eu escolheria para o espetáculo de ontem? Inefável.

Eduardo Montagnari
Café de Investigação 04: Sara Antunes, Vera Holtz e Analú Prestes
Edna Portari assistindo ao vídeo de Analú Prestes

                                                                                Fotos: Lívia Cabrera

UM OLHAR TECIDO EM SONHOS ... PARA VESTIR


                                                                                Fotos: Lívia Cabrera


Sara Antunes, que já nos havia encantado ontem com Negrinha, hoje nos levou ao mais delicado arranjo de lembranças, desejos e hipóteses construído de/sobre palavras. Interagindo com o público e tecendo a partir desta intervenção toda a “dramaturgia” do espetáculo, Sara demonstra, como já o havia feito no espetáculo anterior, um domínio absoluto sobre este difícil e arriscado jogo. Como nos antigos desenhos para bordar, ela preenche, a partir de um contorno delineado, todo o espetáculo.

O texto, como a cenografia e o figurino, explora as transparências, deixando ver siluetas de encontros e despedidas. Em cena a iluminação feita por pequenas lâmpadas encapadas por tecidos bordados desenha sombras e lembranças. Momento mágico é o do primeiro vestido tecido pela mãe, com o qual a personagem, já adulta, se cobre, vestindo-o pela cabeça – parto às avessas – o desejo de retornar a infância, a um tempo de ilusões e alegrias. Como em um passe de mágica, a criança se faz mulher, o pequeno vestido se transforma em véu nupcial, cobrindo seus cabelos e ligando dois momentos diversos: o agora ao início da peça quando, com o auxílio de alguém da platéia, ela se desvela para a noite de núpcias, desenrolando uma fita dourada que traz presa à cintura. Fundindo filha, esposa e mãe, a um só tempo todos esses papéis femininos estão ali presentes.

Não é sem intenção que o primeiro vestido está em uma grande caixa prateada, que a personagem acaba por ocupar, como o vestido, ela é um presente, e aqui a ambiguidade das palavras ganha valor redobrado: presente/mimo e presente/momento atual, ambos confrontando-se com o passado e as lembranças. O magnífico painel bordado, que é, também, desvelado ao final da peça, ecoa na pequena e frágil boneca de papel “presa”, suspensa em um cubo transparente, símbolos desta delicadeza, desta feminilidade, capturada pelo e no tempo.

A peça, riquíssima de elementos femininos, como a jarra, a bacia e a caixa de prata, a água, os tecidos e os véus, recorta e insinua esse universo sinuoso e circular no qual vida e morte se confundem, oferecendo outro ângulo para se ver/pensar o mundo. A palavra poética de Sara Antunes, somada ao cenário mágico de Analu Prestes e à direção delicada de Vera Holtz confirma a veracidade da frase de Guimarães Rosa: “todo abismo é navegável a barquinhos de papel”.
Flávia Marquetti

UM OLHAR CHEIO DE GRAÇA: O GATO MALHADO E A ANDORINHA SINHÁ




                                                                                Fotos: Lívia Cabrera


O Grupo 59 trouxe uma deliciosa montagem para as crianças da 23ª SLAMC, mesclando música, dança e textos, todos com ótimas interpretações. O jovem grupo de São Paulo fez a alegria dos pequenos (e dos grandes), que se encantaram com as estripulias em torno de diversos animais surpreendidos pelo amor de um gato por uma andorinha. O trabalho de corpo é um dos destaques, como o saltitante sapo e a irrequieta andorinha, contando ainda com vozes muito afinadas no canto e expressivas sonoridades “imitando” os animais, os atores criaram um verdadeiro universo mágico, praticamente sem cenário, com indumentária simples, mas muito criativa, com alguns poucos instrumentos musicais, que pontuavam certos momentos ou serviam de acompanhamento para as canções, mostrando explicitamente as transformações e o revezamento dos atores nos diversos papéis, o Grupo 59 demonstrou segurança e muito entrosamento.  Ao final, o bônus, segundo os integrantes, apresentado em forma de canção, fez o público sair ainda mais risonho e feliz. Ótima maneira de criar, nas crianças, o gosto pelo teatro.

Flávia Marquetti

quinta-feira, 23 de junho de 2011

OLHOS NOS OLHOS COM ZÉ GUILHERME

Oi, Gui! Respondendo às suas duas postagens: a referente ao espetáculo da Sara Antunes e a da Cia dos Pés. Embora as propostas sejam completamente diversas, ambos trazem um ponto em comum: a fragmentação do texto que, para alguns, não se configuraria em uma “verdadeira dramaturgia”. No caso do Casca de Nós, em virtude do espaço utilizado, a fragmentação é ainda maior do que em Negrinha. Mas essa proposta contemporânea de estilhaçar o texto e não oferecer uma estrutura dramatúrgica nos moldes convencionais, digamos... com começo, meio e fim evidentes, tem como prerrogativa forçar o espectador a sair de sua costumeira passividade diante da encenação. Toda obra de arte, que busca uma linguagem nova, visa uma reação/reflexão do público, o formato escolhido para cada espetáculo, se lírico, delicado, poético ou agressivo (que não foi o caso dos dois em questão) vai do grupo e mesmo o grau dessa fragmentação também pode variar, em Aqueles Dois, da Cia Luna Lunera, também houve fragmentação, inclusive na representação dos personagens (4 atores se revezando para interpretar 2 personagens), escolhas e criações que exigem, sempre, um domínio absoluto da encenação, pois devido à fragmentação do texto, o ator tem que ser excepcionalmente bom e nós tivemos o prazer de ver isso em todos esses espetáculo. Evoé!!! Filhos de Dioniso, vocês nos encantam.
Flávia Marquetti
FONTAINEBLEU


                                                                               Fotos: Lívia Cabrera


A apresentação da Cia Tan-Tan trouxe para o Teatro Municipal, um espetáculo de clowns que por 50 minutos buscou divertir o público que ali esteve presente. O “não sentido”, como é comum às apresentações do gênero, predomina numa encenação construída de movimentos, gestos e palavras em que o abuso “do francês” se transforma em mote para a maioria das brincadeiras que formam o jogo cênico armado entre os atores Paulo, Pínio e Juliana que se transformam nos Palhaços Néio e Feno e na Palhaça Flóris que assumem os papéis De Claude Monéio, Auguste Fenoir e Fina Arbre.

Essa superposição de papéis, cuja linha divisória que de tão tênue se torna imperceptível se desenvolve em meio a um cenário delicado, reforçado por uma sutil, eficiente e poética iluminação, com adereços adequados e um belo figurino de clowns. O “visual” é sem sombra de dúvidas o ponto alto de uma encenação que não logra alcançar o mesmo brilho quando se trata de pensar em sua fábula. Esta nos é apresentada por meio de falas, gestos, expressões corporais e brincadeiras cuja recorrência chegou até mesmo a provocar certo tédio que - quem sabe – se deve à concorrência de um público não muito expressivo!



NEGRINHA
                                                                                     Danielle Aquino
E existe um povo que a bandeira empresta/Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!

Esses versos que iniciam as três estrofes finais de “Navio Negreiro”, do poeta Castro Alves, é a citação que encerra a “poética, lúdica, cruel e apavorante” encenação de Negrinha cuja dramaturgia, calcada na situação de miséria e abandono a que foram relegados os escravos após a assinatura da Lei Áurea, teve como inspiração o conto homônimo de Monteiro Lobato, escrito em 1920.

O espetáculo, que faz jus ao texto que o apresenta (e que se encontra impresso no programa da Semana Luiz Antonio), resultou em uma encenação conduzida com maestria pela direção de Luiz Fernando Marques e pela atuação primorosa, expressiva e eficiente de Sara Antunes, que também é a autora das falas que representa e diz.

O belo resultado da arte e do figurino assinados por Renato Bolelli Rebouças emprestaram o clima final e os contornos que transformaram a sala de bailes do antigo Clube Araraquarense em cômodos de uma verdadeira Casa Grande e sua Senzala. E foi ali naquele espaço impregnado de histórias, que ontem Negrinha nos transportou para interior das sombras da memória de um mundo tenso, confuso e intenso de pensamentos e espantos, visuais, sonoros e sensoriais... Enfim, para dentro de nós e das marcas violentas que nossa História insiste em cobrir.


Eduardo Montagnari
Café de Investigação 03 - Eduardo Montagnari


                                                                                                                                        Fotos: Lívia Cabrera

O OLHAR SINESTÉSICO DE NEGRINHA


                                                                            Fotos: Danielle Aquino

Como descrever o prazer de se perceber uma encenação? Essa é a dificuldade primeira de escrever sobre a peça Negrinha, de Sara Antunes. Antes de qualquer coisa, esta é uma peça que nos pega pelos sentidos: audição, visão, olfato e, para alguns escolhidos, também o tato. A presença de cheiros, sons e ruídos, luz e escuridão, alternando-se ao longo de toda a peça, exige do espectador uma atenção e percepção completa.

Optando por um espaço alternativo, o salão do Palacete das Rosas e distribuindo o público por todo o espaço (sentados em cadeiras no alto, em pequenas arquibancadas e cubos), alternando-o com móveis antigos, objetos cênicos, cortinas e iluminando tudo apenas com a luz de poucas velas, Sara Antunes, com uma representação impecável, nos fez transitar entre a casa grande e a senzala, com direito a vasculhar o porão ou baú de lembranças da escravidão, ora na mente da pequena Negrinha ora na dos senhores.

Após a acomodação do público, a escuridão... e o som de grãos que caem em uma vasilha de metal, mas que também sugerem galhos que batem na vidraça com o vento... ilusão dos sentidos que perdurará por toda a peça. Os grãos, que poucos de nós realmente vêem, são descritos como pretos (feijão), brancos (canjica) e amarelos (milho), que se destinam ora ao homem ora aos animais, tudo muito simples, aparentemente, apenas um trabalho doméstico da menina Negrinha, mas que se revela a primeira separação/segregação pela cor. O jogo com as cores se repetirá, com o auxílio do público, ao longo de toda peça, dando sempre a idéia de uma brincadeira, mas que constrói uma rede de “desconforto”, pois acertar (ou não) a cor de algo é arbitrário.

A própria atriz, com a iluminação das velas, ganha tonalidades diversas, do branco ao pardo e mesmo o negro, ao colocar o corpo na total penumbra, demonstrando que a cor depende do ângulo que se olha o objeto. Não sem malícia o texto nomeia àquela que criou Negrinha de Áurea Cândida, aludindo à cor (branco), mas também à Lei Áurea (que embora tenha libertado os escravos, jogou-os na mais absoluta miséria e marginalidade) e a uma ingenuidade/pureza que não condiz com a personagem, proprietária da casa de açúcar, outra ambiguidade deliciosa, pois sobrepõe o branco/doce do produto da cana ao branco/cruel da casa grande e dos senhores de engenho. Quem conhece o conto de Monteiro Lobato, no qual o texto da peça foi baseado, sabe o quão terrível é a figura dessa senhora de escravos e a que castigos absurdos ela submete a pequena negrinha.

Vale destacar ainda o efeito magistral que é conseguido com a queima de uma palha de aço, colocada em moldura dourada, para representar o debandar dos negros pelas montanhas após a libertação. Consumida irregularmente, a palha de aço desenha caminhos iluminados por tochas, mas, como tudo na peça, a bela imagem é também ambígua, pois remete à pintura e à visão/versão dada pela classe branca dominante ao fato histórico em questão.

Sintetizando o abandono, o desprezo, a solidão de todo um povo, o monólogo denso e, por muitas vezes, divertido desta Negrinha tenta jogar um pouco de luz e resgatar a dignidade e a humanidade de boa parcela da população brasileira.


Flávia Marquetti

UM OLHAR PARA O PASSADO: CHÁ DAS DUAS


                                                                             Fotos: Tadeu Queiroz

Nesta quarta-feira, o Grupo Contos e Cantos enterneceu e fez rir muito a platéia que lotou o anfiteatro do SENAC para ver Chá das Duas. Driblando, com muito profissionalismo, o espaço apertado, a falta de coxias e os demais entraves que poderiam prejudicar a apresentação, Cláudia Galvão e Lu Mani fizeram um espetáculo no qual a qualidade da encenação foi um dos pontos fortes, seguras, com excelente trabalho de corpo e de voz,  e um maravilhoso entrosamento as duas se transformaram em simpáticas velhinhas. A cenografia, figurinos e adereços, de um cuidado esmerado, contribuíram ainda mais para envolver os espectadores nesse universo repleto de lembranças, desejos insatisfeitos, frustrações e sonhos. Com tiradas inesperadamente irreverentes, a dupla soube explorar a dramaturgia, não permitindo que o tom das lembranças, às vezes dolorosas, pesasse na cena.

O texto é assinado por Márcio Pontes, mas em parceria com as atrizes, como ele deixou claro ao final da peça, demonstrando o trabalho de conjunto e afinação de todo o grupo. Para quem conhece o trabalho de Márcio Pontes, no Polichinelo, não há surpresa no cuidado, no detalhamento de cada frase, objeto, gesto.

Único grupo de Araraquara a ser selecionado, o Grupo Contos e Cantos, representou de maneira impecável a cidade no que há de melhor nesta arte que só se faz com dedicação, empenho, entrega e paixão. E diria mais... representou COM-PLE-TA-MENTE !!!


Flávia Marquetti

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Café de Investigação 02: Gabriela Rabelo

                                                                                     Danielle Aquino

O grande grito

                                                                                    Danielle Aquino

A “história de verdade, inventada” por Gabriela Rabelo e dirigida por José Renato, espetáculo endereçado especialmente ao público adolescente (lembro a raridade de dramaturgias e encenações voltadas a esse público), aconteceu na tarde de ontem para uma platéia escolar. O atraso de uma escola colaborou para entrada tumultuada de estudantes despreocupados com seu entorno. Assim, o espetáculo que começou atrasado foi se impondo aos trancos e barrancos e os mais interessados puderam embarcar, meio que atabalhoadamente, na viagem do Grupo Luz e Ribalta, ainda que manifestações gratuitas (falo do riso e das exclamações bobas) seguissem acompanhando determinadas cenas até o final da trama quando o elenco foi – surpresa! - ovacionado como se aquela platéia tivesse assistido ao “maior espetáculo da terra”.

O teatro é uma arte que resulta da combinação de vários elementos que são articulados de acordo com a perspectiva cênica eleita por um diretor ou por quem esteja à frente da encenação. A platéia presente teve ontem à sua disposição a oportunidade de apreciar um espetáculo construído com dedicação onde gravitava a maioria dos elementos que compõe uma encenação própria de um palco italiano: elenco afinado, ótimos protagonistas (incrível a semelhança do ator que interpretou Macunaíma com Grande Otelo, em especial pelo timbre vocal), boa sonoplastia, belo projeto de luz (ainda que muitas vezes tateante provavelmente pelo operador não estar ainda familiarizado com a mesa de iluminação), bonito cenário, figurino e adereços adequados... Um elemento fundamental para que o teatro aconteça é o público. Esse, o único elemento que não pode faltar, foi o que deu o tom desafinado de “O grande grito” (que imagino ter sido também motivo do desabafo final de “Mario de Andrade”).

Mas todos nós fomos crianças e adolescentes. Quando adolescente, o teatro que eu conheci era feito nos circos. Findo os números de variedades e trapézio, a gente corria, cada um com sua cadeira para encontrar o melhor lugar em frente à ribalta. Atentos e encantados acompanhávamos os melodramas e comédias que faziam parte de um repertório comum a todos os chamados circos-teatros.

Sei que quando já não somos crianças ou adolescentes, esquecemos o que fomos e podemos ser mais intolerantes do que o admissível, se é que existe intolerância admissível! Mas como educadores, que também somos, temos que aprender a superar esse traço e educar para além da simples instrução escolar. Ir ao teatro é, ou deveria ser um acontecimento, se as escolas preparassem os alunos para tanto (em especial pelo assunto que serviu de base à autora do texto de ontem: o famoso acervo trazido por Mario de Andrade da pesquisa que o escritor fez no norte e nordeste do Brasil no final dos anos 30 e que ficou largo tempo abandonado). E Mario de Andrade sendo especialmente importante para Araraquara, jamais poderia ter sido recebido como o exemplo da tarde de ontem oferecido pela escola que chegou atrasada para a função. Teatros não admitem atraso, ou não devem admitir, e isso é parte inclusiva da educação por meio disso que chamamos cultura.

Quanto ao espetáculo, tivemos a coexistência em cena de duas realidades: uma imaginária, oriunda de personagens literários, da cultura popular e do “espírito” de Mario de Andrade, e outra extraída da vida anômica do nosso dia-a-dia: família, riqueza, trabalho, juventude, droga, crime... Essa dualidade permitiu à dramaturga oferecer aos espectadores um texto cujo maior mérito, segundo minha leitura, foi transformar o tradicional antagonismo que encontramos na eterna discussão entre civilização e cultura, em especial quando visitamos a herança deixada por Rousseau, no fundamento para armar seu conflito dramático. Assim, estava em cena o tesouro representado pela cultura esquecida, oposto à barbárie de personagens reais que entendem essa palavra apenas como riqueza material feita de jóias, ouro e dinheiro. O olhar lacrimoso de Mario de Andrade, sua incompreensão para com o descaso em relação a valores maiores e sua indignação para com a ignorância, violência e brutalidade do nosso cotidiano, desembocaram no “grande grito” de Gabriela Rabelo, cujo pecado foi não ter logrado se libertar da dicotomia que lhe serviu de base. Não foi um pecado capital, pois seu grito também é nosso!

Eduardo Montagnari

UM OLHAR APRISIONADO: O GRANDE GRITO

                                                                                    Danielle Aquino


O Grupo Luz e Ribalta (SP) trouxe Macunaíma de volta à sua terra, com um texto que busca resgatar um outro lado da vida de Mário de Andrade, o de diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. Dividida em dois planos: o espiritual, onde habitam Mário de Andrade, Macunaíma e Exu; e o real, onde se encontram duas famílias que as vidas confluem para um mesmo drama, a peça se propõe a resgatar as angústias e frustrações de Mário de Andrade diante da realidade social brasileira, com seus projetos abortados durante o governo de Getúlio Vargas.

O cenário, composto por caixas e objetos que remetem aos recolhidos na Missão de Pesquisa Folclórica feita em 1937/38, nos oferece a imagem do aprisionamento e empobrecimento de um ideal perdido no descaso da burocracia e desconhecimento do valor real da cultura. O mundo “real” encontra-se dividido em dois focos: um à direita e outro à esquerda deste universo habitado pelo espírito de Mário, Macunaíma e Exu, evidenciando a ponte pretendida por Mário, diminuir o abismo entre as classes sociais, representadas, na peça, pela classe alta e a baixa.

A dramaturgia se perde um pouco entre esses dois universos: o de Mário e os das famílias, parecendo não conseguir transpor de um mundo ao outro com naturalidade. São dois mundos estanques que criam um desnível na apresentação, como se fossem estranhos um ao outro. Ao menos, foi o que ocorreu à tarde, quando assisti. Deve-se ressaltar que a platéia, composta por jovens de escolas de segundo grau da cidade, também não contribuiu em nada para a boa realização do espetáculo, irrequieta, barulhenta, sem qualquer respeito pelos atores em cena e, aparentemente, sem nenhuma idéia de quem era Mário de Andrade, Macunaíma e o universo literário abordado, conversaram, falaram ao celular, jogaram objetos uns nos outros, gritaram histericamente por nada...enfim, uma cena triste e lamentável, que nada mais fez que aumentar a dor das reflexões de Mário de Andrade no palco.
O destaque da peça fica por conta do ator que interpreta Macunaíma, que nos fez lembrar a todos de Grande Otelo tanto na aparência quanto na qualidade da interpretação.

 
Flávia Marquetti

terça-feira, 21 de junho de 2011

Café de Investigação 01: Mônica Nador

Mesa Redonda: Teatro Musical Brasileiro
Eduardo Montagnari, Neyde Veneziano, Luiz Antônio Amaral


                                                                               Fotos: Lívia Cabrera

A SERPENTE

                                                                                        Lívia Cabrera

                                                                                          Lívia Cabrera

As duas experiências que tivemos que provar como público, ontem, na “23ª Semana Luiz Antonio”, foram radicalmente opostas. Saímos do Paço para o Palco do Municipal. Deixamos um espetáculo suspenso na imensidão do ar para entrar no confinamento sombrio de um cômodo familiar. Nada mais contrastante.

Depois de assistir à exibição da “Cia dos Pés”, fomos convidados a mergulhar em outro tipo de aflição estabelecido pelo drama de casais típicos da galeria de personagens compostos por Nelson Rodrigues. Personagens imersos em seus conflitos interiores, inclinados à vulgaridade e incapazes de controlar seus excessos. Personagens que em geral não conversam, mas gritam...

“A Serpente”, drama menor (de um ato) quando o comparado aos outros dramas do autor de “Vestido de noiva” (marco do moderno teatro nacional) também expõe o confinamento e a histeria dos “lares” pequenos burgueses: verdadeiros campos de batalha de personagens atolados numa moral burguesa, que não resistem aos seus impulsos interiores e que se deixam levar por comportamentos que eles mesmos encaram como “sujos” e dos quais não conseguem se livrar. Como em outras peças, esse universo recorrente nas obras de Nelson Rodriguês, foi exposto por um pequeno texto que se alimenta dramaticamente da metáfora anunciada em seu título. Nelson foi por princípio um moralista.

Nada disso é muito novo em se tratando do autor de “Boca de ouro” e, a não ser pela juventude do grupo empolgado com o resultado do trabalho realizado, o que assistimos foi um espetáculo sombrio, principalmente pelo cenário escuro e pelo figurino roxo das duas personagens centrais, em contraste com o vermelho da rápida passagem da empregada mais o branco dos dois buquês utilizados no início da peça e presente no figurino do personagem Paulo. Um ambiente sombrio reforçado pelo roxo da cama, pelo escuro dos adereços de cena e pela iluminação de lâmpadas comuns presas em panelões suspensos que serviram seguidas vezes, aos próprios atores, para focalizarem individualmente os rostos dos companheiros de cena. Recurso que, como o uso das lanternas, só fez acentuar o negror de um palco que a direção entendeu competir ao drama rodriguiniano.

As interpretações do jovem elenco não comprometeram o conjunto frágil do espetáculo e a sonoplastia apenas reforçou o comum de tangos tão recorrentes quando se trata de encenar Nelson Rodriguês. Com a montagem de “A Serpente”, texto que se alimenta do mito que está lá no “princípio tudo”, com Adão e Eva, a “Cia Mênades & Sátiros” de Presidente Prudente, não logrou ser diferente.



Eduardo Montagnari

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