Prólogo

O ATOR E AS CIDADES

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

.....................................

A arte do ator é feita de chegadas e partidas, a cada cidade uma nova experiência, em cada uma ele deixa um pouco de si e leva um pouco de tudo: rostos, risos, lágrimas, histórias, vivências, sensações. O trânsito, a mobilidade é a pátria do despatriado ator, vagar entre culturas, costumes e tempos diferentes é sua sina e paixão, pois ele se compõe e recompõe de cada momento. Tolo é aquele que pensa que a arte morre, tem seu lugar determinado por marcas geográficas, por cronologias... a arte foge de todo e qualquer enquadramento, não cabe no mapa, pois é cigana, não (re)conhece fronteiras, ela se constitui a partir do trânsito, do vagabundear do ator, seu veículo. Em sua carne e expressões ela ganha corpo e reflete os rostos de todos os homens de todos os tempos, arguta e criativa, ela mimetiza o mundo e esse seu habitante conturbado, o Homem e é adsorvida por ele.

A 24ª Semana Luiz Antônio traz a criativa itinerância que brota da releitura de grandes clássicos, de personagens que vagaram pelo mundo e foram incorporando os novos tempos, as novas cidades e estéticas. Em seus corações pulsam as lembranças da origem, mas em suas vestes o novo, o arrojado trânsito por locais insondáveis. E como diz o poeta:


a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa.

Ferreira Gullar



Evoé! e muita Lu(i)z...



Flávia Marquetti



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Café de Investigação 03 - Eduardo Montagnari


                                                                                                                                        Fotos: Lívia Cabrera

O OLHAR SINESTÉSICO DE NEGRINHA


                                                                            Fotos: Danielle Aquino

Como descrever o prazer de se perceber uma encenação? Essa é a dificuldade primeira de escrever sobre a peça Negrinha, de Sara Antunes. Antes de qualquer coisa, esta é uma peça que nos pega pelos sentidos: audição, visão, olfato e, para alguns escolhidos, também o tato. A presença de cheiros, sons e ruídos, luz e escuridão, alternando-se ao longo de toda a peça, exige do espectador uma atenção e percepção completa.

Optando por um espaço alternativo, o salão do Palacete das Rosas e distribuindo o público por todo o espaço (sentados em cadeiras no alto, em pequenas arquibancadas e cubos), alternando-o com móveis antigos, objetos cênicos, cortinas e iluminando tudo apenas com a luz de poucas velas, Sara Antunes, com uma representação impecável, nos fez transitar entre a casa grande e a senzala, com direito a vasculhar o porão ou baú de lembranças da escravidão, ora na mente da pequena Negrinha ora na dos senhores.

Após a acomodação do público, a escuridão... e o som de grãos que caem em uma vasilha de metal, mas que também sugerem galhos que batem na vidraça com o vento... ilusão dos sentidos que perdurará por toda a peça. Os grãos, que poucos de nós realmente vêem, são descritos como pretos (feijão), brancos (canjica) e amarelos (milho), que se destinam ora ao homem ora aos animais, tudo muito simples, aparentemente, apenas um trabalho doméstico da menina Negrinha, mas que se revela a primeira separação/segregação pela cor. O jogo com as cores se repetirá, com o auxílio do público, ao longo de toda peça, dando sempre a idéia de uma brincadeira, mas que constrói uma rede de “desconforto”, pois acertar (ou não) a cor de algo é arbitrário.

A própria atriz, com a iluminação das velas, ganha tonalidades diversas, do branco ao pardo e mesmo o negro, ao colocar o corpo na total penumbra, demonstrando que a cor depende do ângulo que se olha o objeto. Não sem malícia o texto nomeia àquela que criou Negrinha de Áurea Cândida, aludindo à cor (branco), mas também à Lei Áurea (que embora tenha libertado os escravos, jogou-os na mais absoluta miséria e marginalidade) e a uma ingenuidade/pureza que não condiz com a personagem, proprietária da casa de açúcar, outra ambiguidade deliciosa, pois sobrepõe o branco/doce do produto da cana ao branco/cruel da casa grande e dos senhores de engenho. Quem conhece o conto de Monteiro Lobato, no qual o texto da peça foi baseado, sabe o quão terrível é a figura dessa senhora de escravos e a que castigos absurdos ela submete a pequena negrinha.

Vale destacar ainda o efeito magistral que é conseguido com a queima de uma palha de aço, colocada em moldura dourada, para representar o debandar dos negros pelas montanhas após a libertação. Consumida irregularmente, a palha de aço desenha caminhos iluminados por tochas, mas, como tudo na peça, a bela imagem é também ambígua, pois remete à pintura e à visão/versão dada pela classe branca dominante ao fato histórico em questão.

Sintetizando o abandono, o desprezo, a solidão de todo um povo, o monólogo denso e, por muitas vezes, divertido desta Negrinha tenta jogar um pouco de luz e resgatar a dignidade e a humanidade de boa parcela da população brasileira.


Flávia Marquetti

UM OLHAR PARA O PASSADO: CHÁ DAS DUAS


                                                                             Fotos: Tadeu Queiroz

Nesta quarta-feira, o Grupo Contos e Cantos enterneceu e fez rir muito a platéia que lotou o anfiteatro do SENAC para ver Chá das Duas. Driblando, com muito profissionalismo, o espaço apertado, a falta de coxias e os demais entraves que poderiam prejudicar a apresentação, Cláudia Galvão e Lu Mani fizeram um espetáculo no qual a qualidade da encenação foi um dos pontos fortes, seguras, com excelente trabalho de corpo e de voz,  e um maravilhoso entrosamento as duas se transformaram em simpáticas velhinhas. A cenografia, figurinos e adereços, de um cuidado esmerado, contribuíram ainda mais para envolver os espectadores nesse universo repleto de lembranças, desejos insatisfeitos, frustrações e sonhos. Com tiradas inesperadamente irreverentes, a dupla soube explorar a dramaturgia, não permitindo que o tom das lembranças, às vezes dolorosas, pesasse na cena.

O texto é assinado por Márcio Pontes, mas em parceria com as atrizes, como ele deixou claro ao final da peça, demonstrando o trabalho de conjunto e afinação de todo o grupo. Para quem conhece o trabalho de Márcio Pontes, no Polichinelo, não há surpresa no cuidado, no detalhamento de cada frase, objeto, gesto.

Único grupo de Araraquara a ser selecionado, o Grupo Contos e Cantos, representou de maneira impecável a cidade no que há de melhor nesta arte que só se faz com dedicação, empenho, entrega e paixão. E diria mais... representou COM-PLE-TA-MENTE !!!


Flávia Marquetti

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Café de Investigação 02: Gabriela Rabelo

                                                                                     Danielle Aquino

O grande grito

                                                                                    Danielle Aquino

A “história de verdade, inventada” por Gabriela Rabelo e dirigida por José Renato, espetáculo endereçado especialmente ao público adolescente (lembro a raridade de dramaturgias e encenações voltadas a esse público), aconteceu na tarde de ontem para uma platéia escolar. O atraso de uma escola colaborou para entrada tumultuada de estudantes despreocupados com seu entorno. Assim, o espetáculo que começou atrasado foi se impondo aos trancos e barrancos e os mais interessados puderam embarcar, meio que atabalhoadamente, na viagem do Grupo Luz e Ribalta, ainda que manifestações gratuitas (falo do riso e das exclamações bobas) seguissem acompanhando determinadas cenas até o final da trama quando o elenco foi – surpresa! - ovacionado como se aquela platéia tivesse assistido ao “maior espetáculo da terra”.

O teatro é uma arte que resulta da combinação de vários elementos que são articulados de acordo com a perspectiva cênica eleita por um diretor ou por quem esteja à frente da encenação. A platéia presente teve ontem à sua disposição a oportunidade de apreciar um espetáculo construído com dedicação onde gravitava a maioria dos elementos que compõe uma encenação própria de um palco italiano: elenco afinado, ótimos protagonistas (incrível a semelhança do ator que interpretou Macunaíma com Grande Otelo, em especial pelo timbre vocal), boa sonoplastia, belo projeto de luz (ainda que muitas vezes tateante provavelmente pelo operador não estar ainda familiarizado com a mesa de iluminação), bonito cenário, figurino e adereços adequados... Um elemento fundamental para que o teatro aconteça é o público. Esse, o único elemento que não pode faltar, foi o que deu o tom desafinado de “O grande grito” (que imagino ter sido também motivo do desabafo final de “Mario de Andrade”).

Mas todos nós fomos crianças e adolescentes. Quando adolescente, o teatro que eu conheci era feito nos circos. Findo os números de variedades e trapézio, a gente corria, cada um com sua cadeira para encontrar o melhor lugar em frente à ribalta. Atentos e encantados acompanhávamos os melodramas e comédias que faziam parte de um repertório comum a todos os chamados circos-teatros.

Sei que quando já não somos crianças ou adolescentes, esquecemos o que fomos e podemos ser mais intolerantes do que o admissível, se é que existe intolerância admissível! Mas como educadores, que também somos, temos que aprender a superar esse traço e educar para além da simples instrução escolar. Ir ao teatro é, ou deveria ser um acontecimento, se as escolas preparassem os alunos para tanto (em especial pelo assunto que serviu de base à autora do texto de ontem: o famoso acervo trazido por Mario de Andrade da pesquisa que o escritor fez no norte e nordeste do Brasil no final dos anos 30 e que ficou largo tempo abandonado). E Mario de Andrade sendo especialmente importante para Araraquara, jamais poderia ter sido recebido como o exemplo da tarde de ontem oferecido pela escola que chegou atrasada para a função. Teatros não admitem atraso, ou não devem admitir, e isso é parte inclusiva da educação por meio disso que chamamos cultura.

Quanto ao espetáculo, tivemos a coexistência em cena de duas realidades: uma imaginária, oriunda de personagens literários, da cultura popular e do “espírito” de Mario de Andrade, e outra extraída da vida anômica do nosso dia-a-dia: família, riqueza, trabalho, juventude, droga, crime... Essa dualidade permitiu à dramaturga oferecer aos espectadores um texto cujo maior mérito, segundo minha leitura, foi transformar o tradicional antagonismo que encontramos na eterna discussão entre civilização e cultura, em especial quando visitamos a herança deixada por Rousseau, no fundamento para armar seu conflito dramático. Assim, estava em cena o tesouro representado pela cultura esquecida, oposto à barbárie de personagens reais que entendem essa palavra apenas como riqueza material feita de jóias, ouro e dinheiro. O olhar lacrimoso de Mario de Andrade, sua incompreensão para com o descaso em relação a valores maiores e sua indignação para com a ignorância, violência e brutalidade do nosso cotidiano, desembocaram no “grande grito” de Gabriela Rabelo, cujo pecado foi não ter logrado se libertar da dicotomia que lhe serviu de base. Não foi um pecado capital, pois seu grito também é nosso!

Eduardo Montagnari

UM OLHAR APRISIONADO: O GRANDE GRITO

                                                                                    Danielle Aquino


O Grupo Luz e Ribalta (SP) trouxe Macunaíma de volta à sua terra, com um texto que busca resgatar um outro lado da vida de Mário de Andrade, o de diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. Dividida em dois planos: o espiritual, onde habitam Mário de Andrade, Macunaíma e Exu; e o real, onde se encontram duas famílias que as vidas confluem para um mesmo drama, a peça se propõe a resgatar as angústias e frustrações de Mário de Andrade diante da realidade social brasileira, com seus projetos abortados durante o governo de Getúlio Vargas.

O cenário, composto por caixas e objetos que remetem aos recolhidos na Missão de Pesquisa Folclórica feita em 1937/38, nos oferece a imagem do aprisionamento e empobrecimento de um ideal perdido no descaso da burocracia e desconhecimento do valor real da cultura. O mundo “real” encontra-se dividido em dois focos: um à direita e outro à esquerda deste universo habitado pelo espírito de Mário, Macunaíma e Exu, evidenciando a ponte pretendida por Mário, diminuir o abismo entre as classes sociais, representadas, na peça, pela classe alta e a baixa.

A dramaturgia se perde um pouco entre esses dois universos: o de Mário e os das famílias, parecendo não conseguir transpor de um mundo ao outro com naturalidade. São dois mundos estanques que criam um desnível na apresentação, como se fossem estranhos um ao outro. Ao menos, foi o que ocorreu à tarde, quando assisti. Deve-se ressaltar que a platéia, composta por jovens de escolas de segundo grau da cidade, também não contribuiu em nada para a boa realização do espetáculo, irrequieta, barulhenta, sem qualquer respeito pelos atores em cena e, aparentemente, sem nenhuma idéia de quem era Mário de Andrade, Macunaíma e o universo literário abordado, conversaram, falaram ao celular, jogaram objetos uns nos outros, gritaram histericamente por nada...enfim, uma cena triste e lamentável, que nada mais fez que aumentar a dor das reflexões de Mário de Andrade no palco.
O destaque da peça fica por conta do ator que interpreta Macunaíma, que nos fez lembrar a todos de Grande Otelo tanto na aparência quanto na qualidade da interpretação.

 
Flávia Marquetti

terça-feira, 21 de junho de 2011

Café de Investigação 01: Mônica Nador

Mesa Redonda: Teatro Musical Brasileiro
Eduardo Montagnari, Neyde Veneziano, Luiz Antônio Amaral


                                                                               Fotos: Lívia Cabrera

A SERPENTE

                                                                                        Lívia Cabrera

                                                                                          Lívia Cabrera

As duas experiências que tivemos que provar como público, ontem, na “23ª Semana Luiz Antonio”, foram radicalmente opostas. Saímos do Paço para o Palco do Municipal. Deixamos um espetáculo suspenso na imensidão do ar para entrar no confinamento sombrio de um cômodo familiar. Nada mais contrastante.

Depois de assistir à exibição da “Cia dos Pés”, fomos convidados a mergulhar em outro tipo de aflição estabelecido pelo drama de casais típicos da galeria de personagens compostos por Nelson Rodrigues. Personagens imersos em seus conflitos interiores, inclinados à vulgaridade e incapazes de controlar seus excessos. Personagens que em geral não conversam, mas gritam...

“A Serpente”, drama menor (de um ato) quando o comparado aos outros dramas do autor de “Vestido de noiva” (marco do moderno teatro nacional) também expõe o confinamento e a histeria dos “lares” pequenos burgueses: verdadeiros campos de batalha de personagens atolados numa moral burguesa, que não resistem aos seus impulsos interiores e que se deixam levar por comportamentos que eles mesmos encaram como “sujos” e dos quais não conseguem se livrar. Como em outras peças, esse universo recorrente nas obras de Nelson Rodriguês, foi exposto por um pequeno texto que se alimenta dramaticamente da metáfora anunciada em seu título. Nelson foi por princípio um moralista.

Nada disso é muito novo em se tratando do autor de “Boca de ouro” e, a não ser pela juventude do grupo empolgado com o resultado do trabalho realizado, o que assistimos foi um espetáculo sombrio, principalmente pelo cenário escuro e pelo figurino roxo das duas personagens centrais, em contraste com o vermelho da rápida passagem da empregada mais o branco dos dois buquês utilizados no início da peça e presente no figurino do personagem Paulo. Um ambiente sombrio reforçado pelo roxo da cama, pelo escuro dos adereços de cena e pela iluminação de lâmpadas comuns presas em panelões suspensos que serviram seguidas vezes, aos próprios atores, para focalizarem individualmente os rostos dos companheiros de cena. Recurso que, como o uso das lanternas, só fez acentuar o negror de um palco que a direção entendeu competir ao drama rodriguiniano.

As interpretações do jovem elenco não comprometeram o conjunto frágil do espetáculo e a sonoplastia apenas reforçou o comum de tangos tão recorrentes quando se trata de encenar Nelson Rodriguês. Com a montagem de “A Serpente”, texto que se alimenta do mito que está lá no “princípio tudo”, com Adão e Eva, a “Cia Mênades & Sátiros” de Presidente Prudente, não logrou ser diferente.



Eduardo Montagnari

segunda-feira, 20 de junho de 2011

CASCA DE NÓS

                                                                                         Lívia Cabrera

                                                              Lívia Cabrera

A sugestão estava nos pés e o espetáculo na demonstração de habilidade, coragem e competência de duas bailarinas dançando verticalmente sobre a parede de um edifício. Não tenho formação para falar de dança e nem muito o que dizer sobre grandes intervenções cênicas, se assim posso classificar o espetáculo com o qual a “Cia dos Pés” de São José do Rio Preto nos brindou ontem. Tenho sim, alguma experiência que me permite abordar com mais propriedade questões sobre teatro, dramaturgia, direção cênica, sonoplastia, atuações...
Teatro, essa expressão que é o resultado da combinação articulada de tantos elementos e que se realiza apenas para o olhar, encontra-se agora, cada vez mais, repleto de exemplos de teatralidade que não se caracterizando de forma plena como teatro, no sentido preciso ou conservador do termo, movimentam festivais interferindo nos espaços urbanos e na vida das cidades. Tenho alguma dificuldade para comentar “oficialmente” essas manifestações, pois em geral não consigo ir muito além do meu gosto e admiração pessoais.
O simples fato de alguém escalar uma parede, seja como for, já me parece um ato radical e impensável. Mesmo assim, vou me arriscar a tecer alguns comentários sobre o espetáculo da “Cia dos Pés” e mais diretamente sobre as atuações de Angélica Zignani (que também assina a direção do espetáculo), de Mariana Gonçalves com a colaboração indispensável de Kesler Jamal Contiero (que figura como diretor administrativo). Juntos, eles deram vida a uma celebração que transformou a lateral do prédio da prefeitura numa imensa passarela cênica onde duas bailarinas se movimentaram num plano absolutamente subversivo para nós que estamos acostumados a sentar comodamente nas poltronas das salas de teatro e olhar quase sempre para frente.
A solução foi facilitar para que muitos pudessem apreciar a evolução das duas atrizes de forma confortável, de frente num certo sentido, porque deitados. E aquilo, por si só, se transformou em um acontecimento estranho para o lugar e para o olhar. Aquele cenário de pessoas deitadas olhando para a parede de um prédio pareceu-me estranhamente mais confortável que uma poltrona numa sala de espetáculos. Apreciar o espetáculo sentado numa cadeira na calçada ou na rua foi a solução para quem não pode deitar (lamento não ter experimentando essa perspectiva). Entre sentar e ficar em pé, busquei experimentar as duas opções (a segunda me pareceu mais confortável). De qualquer modo, ontem pude ver e acompanhar com apreensão como muitos, e com encantamento como a maioria, as arriscadas exibições de habilidade, talento e temeridade de Angélica e Mariana. Confesso que ouvi mal os textos, tanto pela qualidade e altura do som quanto pela apreensão com que seguia os movimentos das duas bailarinas e a habilidosa e precisa atuação de Kesler (que do meu ponto de vista deveria figurar como fazendo parte do elenco).
Quero dizer que tudo isso me fez pensar, já que eu deveria escrever sobre o que estava vendo, o que de mais significativo, para mim, estava acontecendo. A exibição conjunta daquelas duas bailarinas/atrizes era a expressão viva de uma interferência naquele espaço da cidade. Por aqueles breves minutos as duas subvertiam e colocavam a cidade praticamente de ponta cabeça. Ali, na parede daquele prédio público elas, não sei se sabiam e se deram conta disso, devolviam àquele espaço, por alguns minutos, seu sentido original: lugar de teatro.
Subvertendo o uso e a ocupação daquele prédio elas remexeram na história da cidade – e na minha memória - devolvendo àquele espaço o teatro que ali existiu de 1914 a 1969 quando foi brutal e covardemente destruído. Pensei muito nisso enquanto olhava o prédio do Paço Municipal, ainda sem entender o que levou aquele prefeito a fazer o que fez (a história de que o prédio estava condenado nunca colou, ou bailes de carnaval jamais poderiam ter acontecido naquele lugar). Olhei para os lados procurando adivinhar se alguém mais estaria pensando o que eu pensava, como se isso fosse possível, quando ouvi o seguinte comentário: “essas moças são mais corajosas que muitos homens” (como se a coragem fosse um atributo essencialmente masculino!).
Só não entendi porque o som ficou confinado na entrada do Paço Municipal quando poderia estar em algum patamar superior saindo pelas janelas do prédio. Sendo isso possível (creio que é) o resultado teria sido certamente bem melhor, mais grandioso e mais adequado às imagens e movimentos executados pelas duas artistas que chegaram imóveis como dois manequins para depois alçarem seus vôos numa movimentação que me fez lembrar do Bob Wilson que vi no Municipal de São Paulo nos anos 70, especialmente pelo vermelho da flor em contraste com o branco do figurino. Uma lembrança que me faz agregar mais um comentário elogioso ao espetáculo: o cuidado com os figurinos (dos três atores) e com os adereços de cena.

Eduardo Montagnari

OLHOS NOS OLHOS COM OTÁVIO

Oi Otávio, que bom vê-lo aqui no blog. Respondendo à tua postagem, acho que a reação na vida real ainda não é a mesma da platéia ao final da peça dos “meninos” da Luna Lunera, mas é com espetáculos como este, sensível e humano, que se pode mudar o olhar preconceituoso da sociedade, afinal, amor é algo que falta e muito em nosso mundo e já dizia Lulu Santos: toda forma de amor vale a pena!  
Flávia Marquetti

O OLHAR SINUOSO DE NELSON RODRIGUES

                                                                                         Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera

A Cia Mênades & Sátiros, de Presidente Prudente, apresentou na noite de domingo a peça A Serpente, de Nelson Rodrigues. Com elenco jovem, a Cia optou por uma montagem tradicional, com poucas ousadias na encenação. Algumas das escolhas, sobretudo na iluminação, conseguiram efeitos interessantes, como o uso da lanterna em diversos momentos: focada no rosto dos personagens, postados logo à entrada da platéia recebendo os espectadores/convidados, fundindo a foto clássica de casamento às das lápides; no decorrer da peça, o uso das lanternas aludia a um possível inquérito policial, da mesma forma, a figura do “padre”, logo no início da representação, fotografando a platéia e os noivos, mescla a documentação do enlace matrimonial e do crime. O uso de um figurino de cor roxa para as duas irmãs e noivas reforça e antecipa o tom fúnebre destes enlaces. A cama dos casais, que se juntam e se transformam em uma única cama para o triangulo, Lígia/Paulo/Guida, funcionou bem, mas a solução para o salto pela janela não teve a mesma sorte.

Nelson é um texto sempre perigoso, requer um elenco maduro em todos os sentidos, embora as duas jovens que interpretam Lígia e Guida tenham se empenhado e conseguido uma boa atuação, faltou a elas o peso, a densidade que duas atrizes mais “velhas” teriam alcançado. Mas quem gosta de montar Nelson... gosta e a Cia tem tempo e vontade para chegar a esse amadurecimento.


Flávia Marquetti

CASCA DE NÓS E O OLHAR DESLOCADO

                                                              Lívia Cabrera

                                                                                     Danielle Aquino

O grupo Cia dos Pés, de São José do Rio Preto, virou a cabeça do público da 23ª SLAMC com uma proposta bastante original. O espetáculo, Casca de Nós, se propõe discutir o espaço cotidiano, urbano e sua relação com o corpo a partir do deslocamento do olhar, físico inclusive. A Cia colocou toda a platéia a seus pés, deitada (melhor maneira de ver o espetáculo) em colchonetes diante da Prefeitura Municipal. Mais que uma simples inversão na forma de assistir a um espetáculo a proposta do grupo começa por alterar a forma de ver a cidade, os prédios, o que nos cerca e a nós mesmos. Ângulo novo, estranho que, ao romper com a rotina do plano horizontal do olhar, revela detalhes arquitetônicos do espaço, antes não apreendidos, redimensiona a percepção do corpo em relação ao mundo, seja nas sensações táteis do contato com o chão ou da visão, que nos ilude a partir dos movimentos leves, em “câmera lenta” realizados pelas duas integrantes do grupo.

Cuidado, delicado, o espetáculo explora uma trilha sonora bem colocada, que se afina com os movimentos, com o texto, propositalmente fragmentado, solto em pequenos textos, frases e palavras que, como as duas atrizes/bailarinas voam ao vento ecoando dentro dos espectadores. A iluminação do espetáculo à noite revelou delicadezas insuspeitas no espetáculo da tarde (assim como eu, muitos voltaram para revê-lo), mas se surpreenderam ao ver outro. Os movimentos eram os mesmos, assim como a trilha sonora e o texto, mas o sol da tarde produziu outras sombras na parede, diversamente da luz noturna e dos refletores, muito bem explorados pelo grupo, criando belas luas cheias de bailarinas, imateriais, sonho do homem que se projeta descomunal em sua sombra e as tenta alcançar – idealização, saudades, projeção do desejo... tudo cabe nesta deliciosa inversão espacial, na qual o irreal se materializa e o real é mera sombra. Ao deslocar os olhares para a liberdade vertical, a Cia dos Pés nos faz pensar o confinamento no qual vivemos, presos nesta casca de nós/noz que é a casa, a cidade, o próprio corpo, nos convidando a romper a barreira de cimento, a nos permitir um redimensionamento para a vida, virando-a de ponta-cabeça, alterando seu eixo, buscando a leveza e a beleza. Casca de nós me fez lembrar de Asas do Desejo, de Wim Wenders, filme que amo, não só pelo óbvio: a bailarina/trapezista, os anjos, mas por causa do poema que abre o filme, Song of Childhood, de Handke.

Flávia Marquetti

domingo, 19 de junho de 2011

                                                                                         Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera

Araraquara, 19 de junho de 2011




Queridos atores,

depois de assistir prazerosamente “Aqueles dois” voltei para casa com a tarefa de comentar o que tinha visto. Agora me encontro olhando para o branco da tela do computador na procura de alguma coisa que possa dizer para além do que já expressei quando depois do espetáculo fui levar-lhes meu abraço e meu agradecimento. Não tenho muito para acrescentar... Fiquei comovido, me diverti, me entristeci, me fiz perguntas, não me respondi, me vi...

A arte, sem dúvida, é uma poderosa força e talvez a única com capacidade de emprestar sentido a um mundo sem sentido. Uma força capaz de colocar em evidência a estranheza das coisas que se nos tornaram tão familiares que não mais lhes prestamos atenção. E o teatro – não me lembro quem disse isso - é, dentre todas as expressões culturais, a forma mais pública de apresentar e assistir arte. Uma expressão viva que só se realiza no coletivo.

Ainda que o espetáculo que vocês criaram a partir do conto de Caio Fernando Abreu, fale um pouco mais de perto a um determinado público, não tanto pelo argumento, mas pelas citações e referências carregadas de significados culturais datados e endereçados (cheguei a comentar que assisti “Infâmia” no cinema), o fato é que a platéia inteira se envolveu na trama dos “dois” personagens vividos tão intensa e brilhantemente por vocês, Cláudio, Marcelo, Odilon e Guilherme. Foram todos os presentes que deram em uníssono o veredicto final do que tinham visto: um aplauso sincero, intenso que se prolongaria muito mais se vocês não tivessem tomado a palavra.

A distribuição de dois personagens entre quatro atores foi sem dúvida o grande achado de uma leitura cênica que permitiu estender – universalizar - o drama para além do caso particular do amor entre duas pessoas do mesmo sexo. O caos de uma sociedade carente de sentido em si mesma, embrutecida e repressora, estava ali, presente na confusão, na austeridade e na feiúra de um ambiente entupido de objetos e adereços carregados de simbologia. E a única coisa capaz de dar algum sentido e direção em meio àquele caos era a luz, muitas vezes sutil pelo uso sutil das luminárias, eram os gestos, a movimentação precisa e a fala afinada de vocês, entre vocês e as vezes para nós.

As qualidades épico-dramáticas que vocês apontam estarem presentes no conto de Caio Fernando Abreu, e que certamente serviu de alimento à direção coletiva que vocês mais Rômulo construíram, garantiram a necessária estranheza cênica de um desenrolar dramático que superando o sentimentalismo característico dessa forma de fazer teatro, lograram uma dimensão épica que contrastava com o naturalismo brutal e repressor imposto pelo cenário e pelos adereços.

Quero rematar dizendo que há muito não via um espetáculo tão gratificante. Agradeço em nome da Semana Luiz Antonio... Estamos felizes por vocês terem estado aqui. Esperamos que voltem mais vezes.



Eduardo Montagnari

"Personagens de Porão" (proibido entrar adultos)







                                                                               Fotos: Lívia Cabrera             

À LUZ DOS TEUS OLHOS: MIGUILINS E AQUELES DOIS

                                                                                         Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera

O segundo dia da SLAMC foi dedicado a olhares poéticos sobre universos bem distintos, à tarde quatro jovens do Grupo Miguilins, de Codisburgo (MG), nos encantaram ao contar as histórias que giram em torno de Miguilim, personagem de Guimarães Rosa que está no livro Campo Geral. Miguilim é uma doce visão do universo da criança, doce... não porque não haja sofrimento em seu mundo, há e ele sempre envolve as relações afetivas ligadas à família. Mas, talvez por ser míope, como foi o próprio Guimarães, seu olhar sobre o mundo é diverso, vareado, emprestando ao objeto olhado a beleza que vem do sentimento, iluminando-o e nos fazendo ver sob um outro ângulo. Assim foi também a apresentação dos Miguilins, terna, doce e, apesar de muito jovens, impecáveis na voz, na postura, na entonação de um texto “poético” que exige a modulação e a compreensão profunda de um estado de alma. Nós, como Dito, ficamos a pedir: “conta mais, Miguilins, conta mais...”

E neste universo mineiro, nossos olhares convergem para a Cia Luna Lunera. Agora o espetáculo é “Aqueles dois”, quatro atores e dois personagens do conto homônimo de Caio Fernandes Abreu. Quatro olhares sutis, doces, exatos na composição de uma dramaturgia que se revela envolvente, apaixonada e rica ao desvelar o universo do surgimento de um amor e o preconceito em relação a este. O ponto de partida para o espetáculo é o preconceito explicitado de uma repartição pública ao “farejar” uma possível relação homossexual entre dois funcionários. Mas a peça vai mais além, muito mais.

Desmistificando o encontro afetivo entre duas pessoas, que são do mesmo sexo, o espetáculo, tecido em fios de seda, desmascara a solidão nas grandes cidades e, porque não, nas médias e pequenas; revela os olhos vazios daqueles que não concebem uma vida própria, mas que ainda se pautam em modelos pré-estabelecidos; na inveja, na cobiça e no ódio, sempre velado, dos que ousam viver verdadeiramente.

Para alcançar este resultado primoroso, a Cia Luna Lunera, multifacetou os personagens, que são assumidos por todos os atores, em um revezamento que demonstra a integração e conjunto da Cia, criando em cena jogos que quebram a tensão dramática, fazendo com que o público se divirta, ria e se identifique com as situações, mas sem perder a intensidade, o foco de sua proposta. O cenário, atravancado de objetos, vai se revelando multifuncional, magicamente alternando o espaço público e o íntimo: repartição e quarto.

Nada sobra ou falta neste conjunto, até mesmo os sinais de início da peça são deliciosamente utilizados, com uma ambiguidade mais tarde revelada: são os sinais para o início da peça, mas também são os sinais que revelam o encontro de Raul e Saul. A dramaturgia e o texto ganham uma multiplicidade de sentidos a cada cena, explorando todas as suas possibilidades: como nos desenhos, apenas delineados e de olhos vazios que um dos personagens faz e os vai colando ao fundo, e que mais tarde, quase ao final da peça, são coloridos e se transformam nos rostos dos colegas de repartição, todos “iguais” em sua infelicidade. Os únicos olhos brilhantes são os de Saul e Raul... e os do público, claro!
Flávia Marquetti

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