Prólogo

O ATOR E AS CIDADES

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

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A arte do ator é feita de chegadas e partidas, a cada cidade uma nova experiência, em cada uma ele deixa um pouco de si e leva um pouco de tudo: rostos, risos, lágrimas, histórias, vivências, sensações. O trânsito, a mobilidade é a pátria do despatriado ator, vagar entre culturas, costumes e tempos diferentes é sua sina e paixão, pois ele se compõe e recompõe de cada momento. Tolo é aquele que pensa que a arte morre, tem seu lugar determinado por marcas geográficas, por cronologias... a arte foge de todo e qualquer enquadramento, não cabe no mapa, pois é cigana, não (re)conhece fronteiras, ela se constitui a partir do trânsito, do vagabundear do ator, seu veículo. Em sua carne e expressões ela ganha corpo e reflete os rostos de todos os homens de todos os tempos, arguta e criativa, ela mimetiza o mundo e esse seu habitante conturbado, o Homem e é adsorvida por ele.

A 24ª Semana Luiz Antônio traz a criativa itinerância que brota da releitura de grandes clássicos, de personagens que vagaram pelo mundo e foram incorporando os novos tempos, as novas cidades e estéticas. Em seus corações pulsam as lembranças da origem, mas em suas vestes o novo, o arrojado trânsito por locais insondáveis. E como diz o poeta:


a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa.

Ferreira Gullar



Evoé! e muita Lu(i)z...



Flávia Marquetti



sábado, 18 de junho de 2011

“HÁ MUITOS TEATROS EM UM SÓ TEATRO” (em torno da peça “O horácio”)

                                                                                        Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera


A maior batalha que a “X Turma de Teatro Barão de Mauá” de Ribeirão Preto teve que travar ontem às 24 horas, não foi a que estava sendo demonstrada, para utilizar uma expressão afinada com a forma de teatro que estava sendo encenada, no saguão do Teatro Municipal. O piso escorregadio do saguão do teatro e a acústica nada favorável exigiu dos estudantes/atores uma atenção dobrada que tornou a encenação quase que um teatro de risco. Os desequilíbrios e escorregões, facilitados pelos elementos cênicos, ovos, melancia, vinho, farinha, tornaram o espaço um verdadeiro campo de batalha de acordo com a sugestão proposta pela dramaturgia do alemão Heiner Muller (1929-1995).

Heiner Muller (aproveito para lamentar a ausência de material impresso com maiores informações e detalhamentos sobre a obra, ano em que foi escrita, sobre o autor encenado e sobre a própria encenação), aponta Ingrid Koudela, foi um dos maiores e um dos nomes mais radicais da dramaturgia alemã da segunda metade do século passado, aquele que respondeu pelo aprofundamento de um dos aspectos mais negligenciados da obra teatral do também alemão Bertolt Brecht (1898-1956): seu chamado teatro didático, ou de aprendizagem.

Esse momento da produção dramática de Brecht (intermediária entre a produção do “jovem” e do Brecht “clássico”) é feita de trabalhos (pequenas peças e textos teóricos) que tinham como objetivo explícito servir de ‘experimentos’ para adolescentes, jovens estudantes, militantes políticos, sindicalistas, atores em geral. As peças são pequenas obras que não podem e não devem – como insistem alguns - serem encaradas como peças dogmáticas, uma vez que em nenhuma delas existe uma preocupação de se expor verdades eternas, absolutas, como muitos costumam repetir. Lembro que entre elas, o único texto que fala diretamente da luta de classes é A exceção e a regra (e para quem quiser avançar um pouco nessa discussão convido para apreciarem a radiofonização desse texto, que sob nossa direção, estará sendo levado ao ar na próxima quarta feira - dia22 - às 18 horas no Teatro Municipal).

Esse teatro didático compreende escritos que identificam uma dramaturgia centrada em uma estrutura aberta que mediante o exercício da razão encontra na dialética um instrumento que se coloca a serviço de uma realidade que pode e deve ser demonstrada como passível de modificação. Esse é, de resto, o principal objetivo da forma épica de teatro proposta por Brecht: demonstrar. Trata-se de um teatro narrativo como o que a “turma de Ribeirão” escolheu encenar para exercitar e aprender questões relativas a essa forma de fazer teatro

Recorro a essas considerações porque O horácio encenado consiste em uma leitura que Heiner Muller fez sobre uma peça didática de Brecht chamada Os horácios e os curiácios (1934) que, por sua vez, teve como base a própria História: a formação de Roma e a guerra ocorrida na cidade de Alba no século VII a.C. Há muitas considerações para serem feitas sobre o texto e essa forma de teatro proposta por Brecht, mas não é o momento e nem há espaço para tanto. Lembro apenas que Os horácios e os curiácios configura uma peça – enunciada como escolar - e que, de acordo com Brecht, deveria ser encenada por crianças com no máximo 13 anos e a encenação, por sua vez, deveria incluir diálogos do coro com a platéia para que o processo de aprendizagem pudesse ser atingindo através da troca de idéias. Não há intenção de que a peça se torne um produto acabado, de resto como as demais peças didáticas.

O horácio de Muller adentra mais profundamente o universo da poesia e tendo como base o final da peça de Brecht (quando o horácio é aclamado em Roma) centra sua discussão não no coletivo mas no indivíduo. Na leitura de Muller a ameaça não sendo mais a invasão dos curiácios (habitantes de Alba) muda o foco (conflito) para a escolha de quem vai lutar pelas duas cidades contra o inimigo comum que nunca aparece: os etruscos. Horácio, o vencedor, mata o curiácio, noivo de sua irmã que acaba sendo assassinada por não festejar sua vitória. Assim, o julgamento instaurado tem como discussão investigar se o curiácio deve ser honrado como vencedor ou julgado como assassino.

O texto de Muller tem a grandeza dos grandes poemas épicos e aprofunda a intenção de Brecht de fazer de suas obras didáticas um experimento dialético. Nessa direção Muller encontra na troca de papéis um dado que aprofunda a máxima “há muitos objetos em um só objeto” (estabelecida por Brecht em Os horácios e os curiácios) transformando-a em um emblemático e paradigmático “há muitos homens em um só homem”.

Mas o tema aqui não é o texto de Heiner Muller mas a encenação da “X Turma de Teatro Barão de Mauá” de Ribeirão Preto e nossas considerações devem ser sobre o espetáculo dessa virada de noite: afinal teatro não é a dramaturgia que podemos ler solitariamente e que nossas escolas não nos ensinam a apreciar (afinal, para a imensa maioria, “ler teatro é chato”), mas a peça encenada, viva, que só existe para quem a faz e quem a VÊ.

Assim, o que vimos foi com certeza um exercício difícil, de entrega, uma ousadia e um risco (no sentido metonímico e metafórico) ao qual se dedicou com paixão a turma de Ribeirão Preto. Isso é o que ficou de mais claro e evidente durante o espetáculo. O uso dos adereços de cena - ovo/vinho/frango/farinha/melancia -, o quadro negro, a repetição, a música, evidenciaram o processo épico que fundamentou a pesquisa e a encenação. O ponto mais débil da encenação ficou por conta das falas (da narrativa) que se perderam... Ora, pela acústica (que não colaborou), ora pela fragilidade da emissão/articulação de vozes (isso é “natural” entre jovens estudantes) carentes de mais estudo e aprimoramento (a respiração é fundamental!) em uma peça em que as palavras desempenham um papel que eu chamaria de protagonista e que, parafraseando Muller, devem permanecer inteiras.

Entretanto, o caráter experimental da encenação, sua qualidade de estratégia política e estética (afinal escolher não é um ato descompromissado) é um mérito e uma empreitada que merece ser louvada e que manteve a platéia silenciosa, aflita (pelo risco dos escorregões) e atenta ao desenrolar da trama. Essa estratégia correspondente a um meio de ensino/aprendizagem (como quis Brecht e Muller) fundamentou uma encenação armada com perguntas e respostas, inserção de letras e de canções populares (ressalto a letra de “Tem que acontecer” de Sérgio Sampaio, título homônimo de um belo vinil dos anos 70), interrogatórios, julgamentos, e o uso recorrente da repetição como recurso primoroso e não muito habitual para o nosso teatro feito quase que inteiramente de produtos acabados que encontram no mercado seu principal objetivo.

A música, muitas vezes frágil e nem sempre adequada, especialmente na cena final, que cria um clima (no teatro épico não se trata de criar “climas”) pouco adequado ao desenvolvimento do espetáculo, produziu um ar de “grande final” em contraste com o cenário instigante, feito de restos de adereços despedaçados espalhados pelo chão de granito que, no decorrer do espetáculo, seguidas vezes, desequilibrou alguns atores.



Eduardo Montagnari.


18.06.2011

OLHARES CEGOS NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA LUIZ ANTÔNIO: HISTÓRIA DE ÉDIPO E O HORÁCIO

                                                                  Lívia Cabrera

                                                                                        Lívia Cabrera

                                                                                        Lívia Cabrera

                                                                                         Lívia Cabrera

A Semana Luiz Antônio começou com dois textos que aparentemente não possuem nada em comum, A História de Édipo, com o Grupo Andante (MG), e O Horácio, da X Turma de Teatro – Barão de Mauá. O que a princípio parecia ser um abismo, pois o primeiro foi escrito no século IV a.C. e o segundo no século XX, foi na verdade uma feliz aproximação. Se na História de Édipo temos como ponto chave o dilema diante do (pré)destinado ao homem e a necessidade de escolher um caminho na tripla encruzilhada, sem saber/ver aonde realmente vai nos levar; em O Horácio há o questionamento das escolhas feitas pelos outros (Estado/poder) para nós, que o seguimos cegamente.


A cegueira, ponto comum às duas peças, se manifesta em formas diferentes: em Édipo é primeiro metáfora de seu desconhecimento e, digamos, arrogância, de rei que ousa governar, dirigir a cidade sem, no entanto ser senhor de sua própria história, pois desconhece sua origem, depois de lhe ser revelada sua verdadeira origem, Édipo cega-se fisicamente, explicitando a incapacidade, ou melhor, a fragilidade do homem diante do destino. Em Horácio a cegueira, do personagem, está em assumir o destino de Roma como seu, anular a pessoa, o humano em prol do Estado. Mas Heiner Müller vai bem mais além, ao apontar o destino trágico de seu personagem, aponta para a cegueira de toda a civilização ocidental, antiga ou moderna, matar em nome da guerra e tronar-se herói é diferente de ser um assassino? Eis aí a cegueira e a escolha em O Horácio.


Em ambas as peças é preciso saber ver para compreender as escolhas estéticas. A montagem de História de Édipo apresentou uma roupagem nova para um texto primoroso, explorando a especialidade cênica obtida por um andaime, o grupo soube aproveitar os altos e baixos, dentro e fora da estrutura para construir o palácio de Édipo, a disposição da arquibancada, circundando o andaime, conferia ao público o lugar de povo de Tebas. Embora tenha irritado os olhos e garganta de alguns espectadores, a fumaça constante, feita com incenso e pó de café, trouxe a peste, a morte e os outros males, descritos no texto, para a cena. Achados sutis e muito bem colocados no espetáculo foram: a dupla máscara para Tirésias, o adivinho cego, que tanto remetia ao seu conhecimento de passado e futuro, quanto ao fato de ter ele experimentado os dois sexos, pois sendo homem, foi metamorfoseado em mulher pelos deuses, voltando a ser homem depois. Outra sutileza foi a utilização de quatro ovos, deixados cair do alto do andaime, cada qual num lado, simbolizando o fim da descendência de Édipo e Jocasta, seus quatro filhos: Etéocles, Poliníces, Antígona e Ismênia; a bola de cristal verde nas mãos de Jocasta, que a deixa cair nas mãos de Édipo, como símbolo do destino comum. Vale lembrar ainda o uso da música ligada às falas do coro, resgatando um expediente da tragédia grega. Enfim, um belo espetáculo.


As escolhas da X Turma de Teatro – Barão de Mauá foram igualmente felizes ao jogarem com a densidade do texto e músicas irreverentes, no uso de vinho para indicar o derramamento de sangue, dos ovos (engolidos crus pelos personagens) aludindo às vidas devoras/extintas pelos soldados, cabendo ao soldado que maior número de ovos conseguiu engolir a “honra” de ser o escolhido para lutar por Roma, foi bastante expressiva, assim como a melancia/corpo devorada pelos romanos, as quebras bem ao sabor brechtiniano das frases escritas na lousa, das cenas cômicas, das narrativas e repetições. Um belo fecho para esta primeira noite.



Flávia Marquetti

quarta-feira, 15 de junho de 2011

23ª Semana Luiz Antônio abre temporada com “Édipo”




O tema “Olhares Múltiplos” permeia a programação da 23ª Semana Luiz Antônio Martinez Corrêa – Festival de Teatro (SLAMC), que se inicia no dia 17, em Araraquara, seguindo até 26 de junho. Com realização da Prefeitura de Araraquara - por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundart e com a parceria do SESC, SESI, SENAC e Oficinas Culturais Lélia Abramo do Governo do Estado de São Paulo – a SLAMC chega com mais de 20 espetáculos teatrais e uma grande programação complementar.


A programação do dia 17 se inicia com o Grupo Teatro Andante (Belo Horizonte - MG), que apresenta “A História de Édipo”, às 20h30, na Praça Pedro de Toledo. Às 23h59, no saguão do Teatro Municipal, a X Turma de Teatro – Barão de Mauá apresenta “O Horácio”.


Também, no saguão do Teatro Municipal, de 17 a 26 de junho, haverá a exposição fotográfica “‘Interiolhar’’, com fotos de cena de Maribel Santos.


Os ingressos para “O Horácio” serão distribuídos a partir das 13 horas, na bilheteria do Teatro Municipal, sendo até dois ingressos por pessoa. Para o espetáculo de abertura, na Praça Pedro de Toledo, não é necessário ingresso. Toda a programação é gratuita.




“A História de Édipo” - Grupo Teatro Andante (MG)

Teatro Andante apresenta “A História de Édipo” em versão para a rua

O Grupo Teatro Andante apresenta na rua, através de um espetáculo ousado, dinâmico e contemporâneo, a história do mito de Édipo, escrita por Sófocles, há 2500 anos, e famosa até os dias de hoje.


Através da investigação sobre a morte de Laio, o Rei Édipo, descobre a grande surpresa que o destino lhe reservou: ele, sem saber, casou-se com a própria mãe e assassinou o próprio pai. Assim, configura-se um dos mais famosos mitos trágicos da humanidade: a história do homem que, em busca de suas origens, instaura os princípios da ética que nos conduz.


Édipo Rei - Nessa releitura do mito de Édipo para a rua, o objetivo do grupo é levar as histórias famosas da humanidade para parcelas da população que não freqüentam as salas comerciais de teatro. Para isso, o Grupo Teatro Andante construiu um espetáculo contemporâneo, ágil, ousado na linguagem, politicamente atual e contundente na comunicação com o público.


É um texto atual porque grande parte das pessoas já ouviu falar em Édipo, ao menos através do famoso “complexo do Édipo”, popularizado pela psicanálise. Mas o mito de Édipo é mais do que isso: fala da ambição do poder, da impunidade, dos limites do público e do privado, da importância de cada pessoa assumir sua própria história, da grande questão entre a determinação do destino e o livre arbítrio.


O teatro sem truques, o jogo explícito e compartilhado com o público, sem rotundas, sem coxias, o espaço em forma de arena, são elementos da pesquisa do grupo, mais uma vez presentes nesse espetáculo. Fortificando sua pesquisa no trabalho do bastão, na pré-expressividade, no jogo do ator, e entre o ator e os outros elementos da encenação como a música e o espaço cênico, o Grupo Teatro Andante volta à rua, cara a cara com a platéia, fazendo do público o “povo de Tebas”.


A trilha sonora é realizada ao vivo, com guitarra, acordeom e elementos de percussão. O cenário é um andaime: um palanque, uma tribuna, um monólito que dá a dimensão para criar a relação de grandeza da tragédia.


Sem dúvida esta será uma ótima oportunidade para o público assistir “Édipo Rei”, escrita por Sófocles há 2500 anos.


Em 50 minutos de encenação, com texto de fácil entendimento e sem carregar na dramaticidade, o Teatro Andante apresenta a história de Édipo e Jocasta, a peça clássica grega mais popular, sempre montada com as mais diversas adaptações e interpretações em todo o mundo.


Grupo Teatro Andante - É hoje um dos mais atuantes e importantes grupos de teatro de Belo Horizonte, tendo participado de festivais nacionais e internacionais. Fundado por Marcelo Bones e Ângela Mourão, em 1990.


Durante toda a sua história de 20 anos de existência, o Andante tem tido como fios condutores de suas produções a pesquisa de linguagens teatrais e a descentralização artística e difusão do teatro para parcelas da população que não têm acesso às casas de espetáculos e que estão fora dos eixos culturais.


A marca do Grupo Teatro Andante é realizar espetáculos com grande qualidade artística e técnica, dirigidos a qualquer público e que possam ser apresentados em espaços variados. Entre outros eventos, o Grupo participou do projeto Palco Giratório do SESC-Nacional se apresentando em 35 cidades de 17 estados brasileiros. Fez parte de projetos como, Trilhas da Cultura, patrocinado pela empresa Belgo Mineira – Arcelor Mittal.


O Grupo também desenvolve oficinas, tais como técnicas corporais, máscaras teatrais, palhaço, técnica e dramaturgia para teatro de rua, formação de educadores, entre outras, uma vez que seus integrantes são professores de teatro.


Interessado no intercâmbio artístico, o grupo participa de ações de compartilhamento e formação, e de movimentos teatrais locais, nacionais e internacionais. O Circuito Off (reunião de grupos que realizam ações integradas em Belo Horizonte), o Redemoinho (que agrega 41 grupos teatrais de todo o Brasil com o objetivo de discutir, promover intercâmbios, trocas de experiências e ações integradas) e o Linea Trasversale (aliança internacional com sede na Itália, que realiza encontros de compartilhamento e estudos) são exemplos da atuação do Andante.


Ficha Técnica
Direção: Marcelo Bones
Elenco: Angela Mourão, Beto Militani, Gladys Rodrigues, e Glauco Mattos
Ator local convidado: Luciano Pacchioni
Adaptação, concepção e produção: Grupo Teatro Andante
Dramaturgia: José Carlos Aragão
Iluminação: Chico Pelúcio e Felipe Cosse
Figurino: Marney Heitmann
Direção Musical: Claudia Cimbleris
Duração: 50 minutos

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Semana Luiz Antônio chega com mais de 20 espetáculos


Sara Antunes em cena de "Sonhos para Vestir"
Cenário-instalação de Analú Prestes. Direção de Vera Holtz


Os “Olhares Múltiplos” conduzem a programação da 23ª Semana Luiz Antônio Martinez Corrêa – Festival de Teatro (SLAMC), em Araraquara, de 17 a 26 de junho. Com realização da Prefeitura de Araraquara - por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Fundart e com a parceria do SESC, SESI, SENAC e Oficinas Culturais Lélia Abramo do Governo do Estado de São Paulo – a SLAMC chega com mais de 20 espetáculos teatrais e uma grande programação complementar.


“A Semana Luiz Antônio tem um significado de importância política e cultural não só para o teatro, pois seu surgimento se dá também com a participação de várias outras linguagens artísticas”, comenta Euzânia Andrade, secretária municipal da Cultura.

“A Semana surgiu na década de 80 como uma atitude de resistência política-cultural por um grupo de artistas das diferentes linguagens, em prol da democracia e da luta para uma política cultural para a cidade de Araraquara, e ela marcou definitivamente a história cultural de nossa cidade. Neste momento podemos refletir sobre a importância da arte nos movimentos políticos e como ela pode contribuir para o desenvolvimento cultural de uma sociedade”, disse a secretária.



O conceito de reflexão desta edição da Semana tem a ideia dos "Olhares Múltiplos", apontando para as formas de ver e ser visto. De acordo com Jorge Okada, gestor de projetos da Secretaria Municipal da Cultura, a palavra “teatro” vem do vocábulo grego “theastai” que significa ver, e “theatron”, é o lugar de onde se vê. “Daí a proposta de se ver em cena a multiplicidade do olhar”, complementa o gestor.


Para tanto, a programação será aberta na sexta-feira (17, às 20h30) com a “A História de Édipo”, recontada de uma maneira contemporânea, na Praça Pedro de Toledo, pelo grupo mineiro Teatro Andante. A história é uma das mais montadas no teatro em todos os países do mundo e, apesar de ser uma história tão antiga, o Teatro Andante procura contá-la de maneira bem moderna, com figurinos contemporâneos, música tocada ao vivo e fogos de artifício.


Além da Praça, diversos outros espaços serão utilizados durante a programação: Teatro Municipal, Teatro Wallace Leal Valentin Rodrigues, teatros do SESC, SESI e SENAC, Prefeitura, Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade e Palacete das Rosas Paulo A.C. Silva.


Além dos espetáculos, a SLAMC traz uma programação complementar, que vai além dos espetáculos agendados: oficina, show, café de investigação, bate-papo e mesas redondas, além da exposição fotográfica “Interiolhar”, de Maribel Santos, com 32 fotos de cenas de teatro, dança e música, no Teatro Municipal (dia 17).

No dia 17, ainda, também haverá o espetáculo “O Horácio”, do dramaturgo alemão Heiner Müller, às 23h59, no saguão do Teatro Municipal, com a X Turma de Teatro, do Centro Universitário Barão de Mauá. O experimento foi criado durante realização da disciplina Interpretação II - Teatro Narrativo, ministrada pelo professor Carlos Canhameiro, com coordenação de Mirian Fontana.


O segundo dia (18) da SLAMC apresenta uma programação intensa, que se inicia às 9h30, no SESC, com Cláudio Dias e Marcelo Souza e Silva, da Cia Luna Lunera (MG), na oficina “O Ator Criador”. São 20 vagas e as inscrições podem ser realizadas na Central de Atendimento do SESC.
Estão reservadas duas atividades na Biblioteca Municipal Mário de Andrade: “Miguilins de Codisburgo”, às 16 horas, e “Personagens de Porão - uma aventura infantil”, às 22 horas (este último destinado a crianças com idade entre 8 e 10 anos; inscrições pelo fone 16 3332-0777).


“Miguilins de Codisburgo” apresenta narrativas de trechos do lírico conto “Campo Geral”, da obra Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa. Composto por adolescentes, com idades entre 13 e 20 anos, o grupo tem contribuído ativamente para a divulgação e preservação da oralidade e da obra de Guimarães Rosa, a partir da narração de fragmentos literários do escritor. O grupo ‘Contadores de Estórias Miguilim’ foi criado em 1996, por Calina da Silveira Guimarães, prima de Guimarães Rosa, com o objetivo de socialização de crianças e jovens da cidade de Cordisburgo (MG), quebrando as barreiras sugeridas pela dificuldade e seletividade da obra do escritor.


Às 20 horas, dois espetáculos distintos, em espaços diferentes: “Aqueles Dois”, com Cia Luna Lunera (MG), no SESC (recomendação etária: 16 anos); e “Baobá”, com Cisne Negro Cia de Dança (SP), no SESI (144 lugares - retirada de convites com uma hora de antecedência no SESI).

“Aqueles Dois” foi criado a partir do conto homônimo de Caio Fernando Abreu e mostra a rotina de uma "repartição" - metáfora para qualquer ambiente inóspito e burocrático de trabalho, revelando o desenvolvimento de laços de cumplicidade entre dois de seus novos funcionários, o que gera incômodo nos demais.

Um Pocket Show Maldito, às 23h59, no Teatro Wallace Leal Valentin Rodrigues, encerra as atividades do sábado.

No domingo (19), um dos destaques é a Cia dos Pés, com o espetáculo “Casca de Nós”, às 16 e 20 horas, nas paredes do prédio da Prefeitura. “Inverteremos o olhar: o público estará deitado no chão da Esplanada das Rosas para garantir a melhor visão do Teatro Físico, que será encenado na parede da Prefeitura”, revela Okada.

O espetáculo é uma abordagem sobre a ocupação sentimental dos espaços, casas, quintais. A casa como uma “casca de nós”, cada uma de um jeito, cada casca com sua história. Depois do espetáculo, às 17h, os atores da Cia do Pés realizam o bate-papo “Dança e Teatro na Vertical” com interessados, no Palacete das Rosas.

A agenda do domingo apresenta o infantil “Zôo-ilógico”, com a Cia Truks (SP), às 11 horas, no SESC (retirada de convites a partir das 9h), show com Sotaque Paulista (Choro das Águas, às 18h, na Praça do Daae).

O espetáculo “A Serpente”, com Mênades & Sátiros Cia de Teatro (Presidente Prudente), às 21 horas, no Teatro Municipal. O texto de Nelson Rodrigues revela o universo de duas irmãs que vivem com seus maridos em quartos vizinhos, no mesmo apartamento presenteado pelo pai. Ambas se envolvem numa paixão repentina e a impossibilidade de viver esse amor as levará a cumprirem destinos incertos.

As atividades da segunda-feira (20) voltam-se para a formação e investigação da cena teatral, com o Café da Investigação nº 1, com Mônica Nador, às 18 horas, no Teatro Municipal; e a mesa redonda “Teatro Musical no Brasil”, com Neyde Veneziano, às 20 horas, na Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

Mônica Nador é uma artista plástica que propõe um novo olhar de cor às comunidades periféricas da cidade de São Paulo. Sua participação deve agregar também o público do Território da Arte de Araraquara, que segue até 26 de junho. Já Neyde é especialista em Teatro de Revista e Teatro Musical no Brasil.

Na terça (21), o grupo Luz e Ribalta (São Paulo), com direção de José Renato, apresenta “O Grande Grito”, às 16 horas (para alunos do ensino médio, com agendamento pelo fone 3336-5183) e às 20 horas (retirada de convites a partir das 13h, no Teatro Municipal).

A autora de “O Grande Grito”, Gabriela Rabelo, partiu de fatos reais para contar a história do acervo trazido pela Missão de Pesquisas Folclóricas (excursão ao Norte e Nordeste feita em 1937/38 sob a orientação de Mário de Andrade) e que permaneceu abandonado em um depósito de uma biblioteca pública no bairro da Lapa, em São Paulo.

No meio desses muitos objetos trazidos pela Missão destaca-se uma escultura firmada de Exu, que ganha vida nesse cenário e aprisiona “o espírito” de Mário de Andrade, até que este cumpra a promessa de lhe dar um lugar de honra em São Paulo. Macunaíma vem sempre visitar seu criador e esses três personagens discutem ali uma forma de cada qual retomar seu caminho. Às 18 horas, Gabriela Rabelo é a convidado do Café de Investigação nº 2, no Teatro Municipal.

No dia 22, quarta, a Semana apresenta um espetáculo que não depende do olhar: a platéia será convidada a ouvir a peça radiofônica "A Exceção e a Regra", de Bertold Brecht, na adaptação e direção de Eduardo Montagnari, e assim, ver através da imaginação as cenas da obra alemã. A apresentação será às 18 horas, no saguão do Teatro Municipal, onde na sequência será realizado o Café da Investigação nº 3 com Montagnari.

Dois espetáculos ocupam o horário das 20 horas na quarta “Fontainebleau”, com a Cia Tan-Tan (SP), no Teatro Municipal (retirada de convites a partir das 13h no Teatro); e “Chá das Duas”, com o Grupo Contos e Cantos, no SENAC Araraquara (retirada de convites a partir das 13h no SENAC).

“Fontainebleau” dá continuidade às pesquisas e desenvolvimento do trabalho de palhaço da Cia, divertindo o público com situações cotidianas, improvisações, temas e críticas para uma reflexão e conscientização mundial.

Em “Fontainebleau”, os pintores impressionistas Claude Monéio (palhaço Néio) e Auguste Fenoir (palhaço Feno), saem do atelier e vão para a floresta Fontainebleau em busca de inspiração para pintar. Ao encontrarem a belíssima Fina Arbre (palhaça Fina), disputam o melhor lugar para pintá-la. Fenoir perde a memória e acredita ser, Olavo Bilac, D. Pedro I e Tarsila do Amaral.

O espetáculo “Negrinha”, às 22 horas, no Palacete das Rosas, apresenta Sara Antunes, com direção de Luiz Fernando Marques, num espetáculo em que a reflexão se faz sobre os olhares impregnados de preconceito. Inspirado em texto de Monteiro Lobato, “Negrinha” conta a história de uma menina negra que possui fascínio pelas cores das pessoas. O enredo se passa no século XIX e, através da imaginação da personagem principal, são denunciadas as contradições de sua época. A recomendação etária é apara maiores de 14 anos, sendo a retirada de convites a partir das 13 horas, no próprio Palacete.

Sara Antunes também é atriz do espetáculo da quinta-feira (23): “Sonhos para Vestir”, no Teatro Municipal, às 22 horas. A peça - criada pela própria atriz e também pela artista plástica Analu Prestes – tem direção de Vera Holtz. Aqui, o público volta seu olhar para o lúdico. A peça se passa durante a noite, quando uma mulher insone, em estado de devaneio, tem uma viagem sensorial, e compartilha seu diário e suas cartas com o público. Com lugares limitados (130), os ingressos serão distribuídos a partir das 13 horas, no Teatro. A recomendação etária é para maiores de 14 anos.

Vera Holtz e Analú Prestes tiveram grande contato com o Luiz Antônio Martinez Corrêa, no Rio e em São Paulo. As artistas engrandecem a agenda da SLAMC com a participação do Café de Investigação nº 4, às 18 horas, no saguão do Teatro Municipal.

O Grupo 59 (São Paulo), com direção de Cristiane Paoli Quito, apresenta no Teatro Municipal, “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, às 16 horas. Na história de Jorge Amado, a alegre Andorinha Sinhá nutre um amor incomum pelo mal-humorado Gato Malhado. Juntos, eles tentam superar suas diferenças. A retirada de convites é a partir das 13 horas, no Teatro.

Com 144 lugares, no teatro do SESI, será apresentado “Louise Valentina”, com Simone Spoladore e Felipe Vidal, às 20 horas. A recomendação etária é de 16 anos, sendo a retirada de convites realizada com uma hora de antecedência, no SESI. O espetáculo será apresentado no mesmo horário, também na sexta-feira.

Os alunos do Curso Técnico em Arte Dramática – realizado numa parceria entre a Prefeitura e o SENAC-Araraquara - abrem a programação da sexta (24), com “O Deserto na Alma e a Cidade Paraíso”, na Praça Pedro de Toledo, às 18 horas. A intervenção é posposta a partir da dramatização de alguns textos retirados das histórias do “Sr. Keuner”, de Bertolt Brecht, e frases de Hermann Hesse, na qual se busca uma reflexão sobre o ser humano, a cidade e a miséria. A partir de olhares múltiplos sobre o universo do que é a carência, o espetáculo propõe um diálogo entre as propostas de Brecht para o teatro e a dramaturgia contemporânea.


Às 20 horas, duas outras apresentações: “Valsa nº 6”, com a Cia Labirinto (Matão-SP), no Teatro Wallace Leal Valentim Rodrigues, com 70 lugares (retirada de convites a partir das 13h, no Teatro Wallace), e “Louise Valentina” (citado acima).

“Amor que não Ousa Dizer seu Nome”, com a Cia Filhos de Alfredo (São Paulo) e direção de Milton Morales Filho, fecha a programação da sexta, às 22 horas, no Teatro Municipal. O espetáculo levanta a temática de discriminação em relação ao comportamento homossexual, retratando dois episódios separados por quase um século: o julgamento de Oscar Wilde e a história do Maníaco do Trianon. No palco: o ator araraquarense Alexandre Cruz e também Marcelo Braga. Os lugares são limitados (130) e a retirada de convites será realizada a partir das 13 horas, no Teatro.

No sábado (25), véspera do encerramento da SLAMC, a Praça Pedro de Toledo recebe “Este Lado Para Cima – Isso Não é Um Espetáculo”, com a Brava Cia (São Paulo), às 17 horas. O grupo figura nos maiores festivais de teatro do país, apresentando este espetáculo de rua que fala sobre o poder do mercado e o controle das relações humanas exercido por ele. O tema é discutido com um humor anárquico e revolucionário.

Depois, às 20 horas, no Teatro Municipal, será encenado “Casa/Cabul”, com o Núcleo Experimental de Teatro (São Paulo), com Chris Couto e Sérgio Mastropasqua, e direção de Zé Henrique de Paula. O espetáculo traz o olhar para o testemunho de uma mulher, sobre o conflito do Afeganistão. O misterioso desaparecimento da personagem conhecida com Dona de Casa, uma inglesa entediada, desencadeia uma busca por parte de seu marido e de sua filha, que desembarcam em Cabul. A recomendação etária é para 14 anos, e a retirada de convites é a partir das 13 horas, no Teatro Municipal. “Casa/Cabul” será encenado novamente no domingo, para fechar a programação da Semana.

Um show musical com o grupo Mawaca encerra as atividades do sábado, às 20 horas, no Teatro do SESI. A capacidade é de 144 lugares e os ingressos serão distribuídos uma hora antes da apresentação, no SESI.

A programação da SLAMC se encerra no domingo (26). No Sesc, às 11 horas, será apresentado “E se as Histórias Fossem Diferentes?”, com a Cia Truks (São Paulo). Os ingressos podem ser retirados no Sesc, no dia da apresentação, a partir das 9 horas.

A Cia Tarcio Costa apresenta “Bate Lata e Vira Lata”, às 17 horas, na Praça do Daae, na programação do Choro das Águas, seguido por show musical com Alex Lima, às 18 horas. O espetáculo “Casa/Cabul” encerra a programação às 20 horas, no Teatro Municipal.

A SLAMC conta com o apoio cultural do Banco do Brasil, Novo Hotel Municipal e Bella Capri. Toda a programação é gratuita

segunda-feira, 28 de junho de 2010

POSTAGENS E COMENTÁRIOS DA 22 ª SEMANA LUIZ ANTÔNIO

CRUZAMENTOS & LEMBRANÇAS


Todos os que têm alguma lembrança, seja foto, seja relato, algo divertido ou outra coisa qualquer das antigas Semanas enviem-nas para o e-mail da Semana Luiz Antônio: semanaluizantonio@araraquara.sp.gov.br, que o pessoal postará no Blog. Assim, anarquicamente faremos um mosaico desses momentos, bem ao gosto das primeiras Semanas Luiz Antônio.
Faço minha a primeira contribuição, a imagem que aí vai é de um dos primeiros crachás da APAU DE ARARA, a associação fundada pelos artistas que organizavam as Semanas e lutavam por uma política cultural em Araraquara.






OBS.: o alfinete é o original, está aí desde os idos...


Flávia Regina Marquetti

CRUZAMENTO DE ENCANTAÇÕES

Nesses dez dias de apresentações da XXII Semana Luiz Antônio Martinez Corrêa, vimos subir aos palcos, quer fossem convencionais ou não, toda uma história do teatro nas suas mais diversas estéticas. Desde peças que retomam textos medievais, como as dos grupos Galpão e Rosa dos Ventos, passando pelo Renascimento, Grupo Preto no Branco e Produtos Notáveis, pelo século XIX, Bia Seidi e o Núcleo Experimental, até chegar ao moderno e ao contemporâneo, com as Cias Hiato e Simples, a Cia Inadequada, Os Satyros, Fernando Eiras e Emílio de Mello, Janaína Leite e Fepa e todas as demais peças e grupos que buscaram uma nova linguagem para esse fazer tão antigo, o ato de representar, de encantar.
O ator usa de seu corpo, de seus sentimentos, de seu sangue para dar vida a um personagem e cruzar sua existência à nossa, mais do que divertir, ele quer capturar a vida no que ela tem de mais intenso, de mais belo e de mais terrível, as relações entre os homens, seus desejos, suas angústias, suas alegrias, seus preconceitos, em suma, tudo o que faz com que sejamos SERES HUMANOS, falíveis e encantadores, pois só o que é falível, imperfeito pode enternecer, a perfeição é exclusividade de Deus e de sua eternidade, sempre igual a si mesmo.
O mais belo no teatro, o que faz com que nos emocionemos é a irremediável certeza do Humano, tanto no que diz respeito ao personagem quanto ao ator, ao contrário de todas as outras artes que usam da tecnologia como mediadora, o teatro nos permite ver ali, ao alcance da mão, em carne e osso, o personagem pulsando no sangue do ator. Essa presença física desses dois universos humanos tão distintos e tão reais, personagem e ator, fundidos em um momento único, que não se reproduzirá jamais, a não ser ali, naquelas poucas horas, com aquela platéia, naquele dia, pois cada espetáculo, embora o mesmo, é outro, é diferente, é marcado pelo inefável, pelo humano.
Benditos sejam os atores que se despem de si para viver o Outro e nos permitem viver com eles esse Outro, cruzamentos e encantações... a possessão de Dioniso – Evoé a todos que partilharam esta XXII Semana de LU(I)Z.

Flávia Regina Marquetti

A MEGERA DOMADA (PRODUTOS NOTÁVEIS – CAXIAS DO SUL/RS)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
A peça do Grupo Produtos Notáveis de Caxias do Sul foi um fecho perfeito para a XXII Semana Luiz Antônio, não só pela qualidade do espetáculo, mas porque apresentou o espírito da Semana, ou seja, as encantações e os cruzamentos.
Tendo a comédia de Shakespeare, A Megera Domada, como base, o grupo revestiu-o com as máscaras e a mise-en-scene da Commedia Dell’Arte, com figurinos de época e a utilização de bonecas para a representação de uma personagem (Bianca), se isso tudo não bastasse, a peça conta ainda com música ao vivo, efeitos sonoros e uma boa dose de humor.
A retomada de um texto clássico inglês, o uso das convenções da Commedia Dell’Arte (com direito a uma simpática homenagem a Arlequino, servidor de dois patrões, de Goldoni, pois o criado não só serve a dois patrões, mas também possui duas máscaras e indumentárias, que troca, deliciosamente, em cena com o auxílio da platéia) e a adaptação para a rua com suas intervenções e contextualizações para os dias de hoje (caso do uso das bonecas para Bianca, a mulher objeto desejada por todos, enquanto Catarina, nada objeto, é temida e rejeitada) representa bem a idéia central da Semana de cruzar as estéticas, as propostas teatrais e buscar um encantamento novo, aproximar do hoje o ontem e revelar a beleza existente no fazer do ator, na arte de interpretar, que independente da escolha estética, é sempre uma entrega.
Com irreverência e visão crítica, A Megera Domada, dos “guris” de Caxias do Sul propõe uma releitura de Shakespeare e uma reflexão sobre os papéis sociais e as relações de hoje, uma peça TRI Legal.


Flávia Regina Marquetti

domingo, 27 de junho de 2010

11º CRUZAMENTO - Varanda - Atelier Lauro Monteiro – Paraty/RJ

Lauro, seria muito bom ter as coisas todas das antigas Semanas registradas, não há dúvida, assim um pouco da história de Araraquara não se perderia. A Euzânia exibiu no Café de Investigação da Edna Portari um vídeo da 1ª Semana, lembra?! Aquela que fizemos na frente da Casa da Cultura pela manhã e no atelier da Euzânia à noite e foi muito legal ver todo o pessoal, muitos já se foram, como o Wilcon, a Cecília, outros estão longe, como o Evaldo Barros, hoje morando em Portugal, o pessoal do Jatubá fazendo uma leitura dramática, sem falar na exibição do Osni e da Eda na frente da Casa da Cultura, na parte da manhã, ali onde fica a Banca Espírita, os meninos da Radio Brasil, dirigidos pela Bernadete Passos e tanta gente que se esforçou, lutou, trabalhou de graça e colocou dinheiro do bolso para que hoje a XXII Semana Luiz Antônio Corrêa aconteça com esse brilhantismo. Sem dúvida é necessário resgatar essa história.

Flávia Regina Marquetti

10º CRUZAMENTO - HORA/LOCAL

Ontem enquanto esperava o início da peça Festa de Separação, eu discutia com outros que ali estavam a questão da escolha do local e da hora das apresentações. Por que algumas peças escolhem espaços e horários alternativos?
Não é simplesmente para nos tirar de casa em horários malucos, as boas peças, como as que vimos até aqui na XXII Semana Luiz Antônio, têm um bom motivo para isso e esse motivo está ligado à estrutura da sua dramaturgia.
No caso de Festa de Separação a escolha do horário, meia-noite, para o início não é nada casual, como muito bem diz o texto da peça, é à meia-noite que os encantamentos se quebram, Cinderela vira Gata borralheira, o príncipe vira sapo, a carruagem, abóbora e assim por diante. Iniciar uma peça, cujo tema é a separação e o desencanto amoroso, à meia-noite, é marcar esse momento tão terrível do fim do conto de fadas. Mas é também o horário em que as atividades externas, geralmente, cessam e que a solidão e o desejo de companhia nos fazem procurar o amigo para desabafar. Isso geralmente é depois das 24h, quantos de nós já não recebemos um telefonema, ou mesmo uma visita, em horário pouco convencional de um amigo precisando conversar e pedir um ombro?! Essa é a idéia da peça, ali não entramos como simples espectadores, mas como amigos com que se reparte algo muito íntimo, doloroso, com quem se pode chorar.
Os mais observadores notaram que o cenário era composto de forma a criar dois nichos, o dele e o dela, mas não poderíamos caracterizá-los como sala ou quarto, eram, na verdade, aqueles pequenos espaços, “cantinhos”, onde arrumamos o que mais gostamos, onde sentamos para ler, estudar, ouvir música, ficar só ou receber um amigo íntimo, este era o cenário/ambiente de Festa da Separação.
Outra peça que também nos levou para dentro, para próximo de seus personagens foi Hipóteses para o Amor e a Verdade, a escolha de um ambiente pequeno, para no máximo 60 pessoas (caso do espetáculo em sua forma original), revela o desejo de colocar o público cara a cara com a realidade que só observa de longe, passando de carro e sem baixar os vidros. Aqui a proposta é também de intimidade, mas em outro sentido, buscando fazer com que o espectador veja aqueles seres como iguais, como seres humanos que sofrem e sentem como qualquer um e, para isso, os Satyros nos colocam convivendo com eles.
Escuro ao adaptar seu formato original para viajar acabou perdendo um efeito essencial de sua proposta. Para os que não sabem Escuro foi concebida para ser realizada em uma piscina vazia, os atores no fundo, a platéia sentada na borda. O que muda? Tudo muda, nós a vimos confortavelmente sentados em poltronas do teatro, com nossos pés firmemente colocados no chão, seguros.
Peço que façam um exercício, imaginem a cena inicial, que ocorre no escuro, portanto sem luz alguma, quando se anuncia no alto-falante que ocorreu um acidente na piscina, a sensação que a cena nos causaria se estivéssemos sentados na borda de um enorme vazio, sem nada enxergar... No contexto da peça, nós estaríamos representado os atletas cegos (sentados na borda) que teriam ido para a competição do clube e, no final, quando se retoma a cena inicial e sabemos que alguém morreu ou se matou e há vários personagens que podem tê-lo feito, nós também estaríamos entre aqueles que estão na beira do abismo ou borda da piscina.
Nós vimos Escuro como quem vai a um grande aquário, protegidos pelo vidro/quarta parede que o teatro nos dá. Isso não quer dizer que a peça ficou menos interessante, apenas que ficou diferente, temos que racionalizar para alcançar seu efeito.
Em contrapartida, IN ON IT ganhou com o enorme palco de nosso teatro municipal, bem maior do que os atores estão acostumados no Eva Herz. Poderiam ter reduzido o espaço, mas exploraram a amplidão, o vazio para intensificar a idéia de distância entre os personagens e o enorme esforço que tem que ser feito para se lançar uma ponte e quebrar a solidão.
Mas e as peças em formato tradicional, nada trazem em suas ambientações? Ao contrário, tomando Cândida como exemplo. A peça escrita no século XIX foi pensada para o espaço da caixa do teatro e ali a vimos, mas a escolha do espaço feita pelo autor para ambientar as cenas é relevante. Shaw escolheu a sala da casa como cenário para Cândida e seus embates ideológicos, poderia tê-la ambientado na sala de jantar (mais intima), ou ainda em um dos quartos (mais íntimo ainda), mas escolheu a sala de visitas, essa opção indica o desejo de colocar a sociedade da época em cena e mais, a persona social dos homens da era Vitoriana em questão. As mudanças apontadas por Shaw na peça são da ordem do público, da aparência e não do íntimo, do ser e aí reside a crítica mais forte do texto.
Como se pode ver, local e hora escolhidos para o espetáculo podem dizer muito e da harmonização deles nasce o encantamento.
Flávia Regina Marquetti

sábado, 26 de junho de 2010

FESTA DA SEPARAÇÃO. Um Documentário Cênico (Janaina Leite e Fepa – SP)

Tocante, envolvente, inusitado e, sobretudo, corajoso, este foi o “Documentário Cênico” apresentado por Janaina Leite e Fepa. Pensado a partir da separação real do casal, Janaina e Fepa, a peça é o relato da experiência vivida por ambos ao decidirem se separar e nas festas que deram para os amigos na época. Buscando um ritual que equivalesse aos que cercam a união, o casamento, Festa da Separação nos propõe uma discussão sobre os relacionamentos no mundo de hoje.
Bem humorado, contando com vídeos feitos pelo casal em diversas fases da união e da separação, com músicas, trechos de filmes, de livros, de conferências, de depoimentos dos amigos, e de tudo o mais que cerca esse universo comum e, ao mesmo tempo, em cisão. Festa da Separação é ambientada em um espaço também cindido, há dois lados, o dele e o dela, (tanto no palco quanto na platéia), o dele recebe na entrada cachaça, o dela bombom sonho de valsa, dialogando simultaneamente com a platéia os atores constroem o prólogo, nos fazendo lembrar os momentos iniciais das separações, quando cada qual procura seu grupo para desabafar, contar o que houve e buscar apoio.
No palco (não convencional) vemos as coisas dele e as dela, as lembranças que cada qual guardou da relação e de suas vidas, intimista, o espetáculo cria uma cumplicidade com o espectador deliciosa. Muitos ao meu lado chegaram às lágrimas nos momentos mais intensos. Corajosamente os atores expõem suas vidas, seus sentimentos, suas dores nos fazendo rever os nossos conceitos de amor, união e separação.
Uma belíssima peça, feita na raça, em muitos sentidos, sobretudo hoje, pois Fepa caiu à tarde e rompeu os ligamentos do joelho e mesmo com dor e mancando fez o espetáculo... dizem que ele não é ator, mas músico, acredito que a partir de hoje ele mereça sim ser considerado um ator, pois só alguém que ama o palco faz isso.


Flávia Regina Marquetti

CÂNDIDA (Bia Seidi e Núcleo Experimental – SP/RJ)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
O espetáculo, Cândida, do Núcleo Experimental trouxe aos palcos da XXII Semana Luiz Antônio um texto do século XIX, de Bernard Shaw, autor que sabe explorar os diálogos entre as personagens, construindo um jogo dialético entre as diversas facetas sociais por eles representadas.
Ambientado na Inglaterra Vitoriana, quando a explosão industrial tem lugar, Cândida discute o papel da mulher em uma sociedade burguesa e patriarcal, e que vê surgir novas doutrinas, como a Socialista. Os conflitos desencadeados entre os discursos, ideais pregados pelas personagens e suas ações é o ponto central para que Shaw desenvolva sua trama.
Com montagem que recupera o teatro tradicional, quase esquecido nesses tempos de experimentações, Cândida busca recuperar o universo vivenciado por Shaw, com cenário e figurinos de época, só inovando na apresentação das rubricas em cena. Um espetáculo correto, embora um pouco frio. Destaque para Fernanda Maia, no papel de Prosérpina, uma divertida secretária.


Flávia Regina Marquetti

sexta-feira, 25 de junho de 2010

IN ON IT (Fernando Eiras e Emílio de Mello – RJ)




De todas as peças teatrais até aqui vistas, a mais difícil de comentar talvez seja esta, de Fernando Eiras e Emílio Mello, IN ON IT. Dizer que é uma riqueza... é pouco e nada diz em verdade, que as atuações são primorosas e impecáveis, todo mundo já disse e os prêmios comprovam. Talvez convenha começar por dizer que esta peça é um dos mais tocantes duelos entre dois grandes atores que já se viu.
Segundo Nietzsche, todos os homens são uma ilha, isolados em seus mundos e incomunicáveis, este é o ponto de partida de IN ON IT, mas em sua estrutura muito bem desenhada, como a luz e a marcação cênica, encontramos intersecções (pontes) entre esses círculos/ilhas que compõem os encontros e desencontros das personagens.
Com um cenário limpo, só recortado pela luz, dez personagens constroem uma teia delicada de relações. Em nenhum momento a cena é óbvia, embora possa parecer de uma simplicidade quase pueril, mas é necessário que o espectador triplique a atenção para poder fruir esse jogo que é desenhado na luz, que abre e fecha focos circulares, cria quadrados que vão do branco ao vermelho, todos plenos de significados para a cena. A marcação dos atores obedece à mesma orquestração, a palavra contracenar ganha novo sentido nos corpos e gestos desses dois esgrimistas, ora quebrando com as convenções do que estamos acostumados a ver, ora dentro de um naturalismo tradicional.
É quase impossível detalhar os pormenores, ou isolar uma cena, pois cada segundo, cada gesto tem um contorno próprio, mesmo que os vejamos repetidos mais adiante, são outros, embora os mesmos e é esse o segredo de IN ON IT, ser muitas peças em uma só, ser o conflito de vários personagens em um. Múltiplo e uno; perfeito no todo, mas deliciosamente fragmentário; quase uma divindade que nos toca e nos leva ao êxtase, só assistindo para sabê-lo.
Em tempo, nada mais perfeito para comemorar o dia do aniversário do Luiz Antônio do que a apresentação de Fernando Eiras e Emílio de Mello, o Luiz ia amar a peça e o trabalho dos atores. Evoé Fernando! Evoé Emílio! Evoé Luiz! Que a estrela de vocês continue brilhando muito.

Flávia Regina Marquetti

quinta-feira, 24 de junho de 2010

9º Cruzamento - Os Satyros e Silvia

É verdade, Silvia, que muita gente ficou de fora do espetáculo dos Satyros, mas não creio que os 124 espectadores ali presentes não estivessem DE FATO querendo vê-lo, se assim fosse não teriam chegado às 18h e ficado por mais de 3h esperando na fila. Outra coisa que me deixa abismada é que se fale tanto de respeito ao público e não se respeite o formato escolhido para o espetáculo. Hipóteses é um espetáculo intimista, em São Paulo é feito para 60 pessoas, o Grupo aceitou dobrar o número de espectadores para a XXII Semana, mas querer que eles descaracterizem sua própria proposta é não respeitar o que se diz querer ver. Mas se não foi possível vê-los aqui, sempre é possível ir a São Paulo, onde o espetáculo fica até o fim do ano e no seu formado mais apropriado, para 60 pessoas, e em um ambiente que se tentou reproduzir aqui, mas que lá é o ideal.
Flávia Regina Marquetti

8º CRUZAMENTO - ESCURO E THIAGO

Nada é mais frustrante do que ver um belo espetáculo e não ter com quem comentar, eu concordo contigo, por isso a idéia do Blog. Boa aproximação a que você fez entre o nome da Cia Hiato e o tema, não deixa de ser uma lacuna, uma falha na comunicação.

Flávia Regina Marquetti

7º CRUZAMENTO – TILL/HIPÓTESES /ESCURO

O que há de comum entre essas três peças? Aparentemente nada, mas se olharmos mais detidamente veremos que elas tratam de um mesmo ponto, com estéticas completamente diversas, sem dúvida.
Logo no início da peça dos Satyros, na fala do personagem Léo, TILL, do Grupo Galpão, é retomado, “o que sobra de um ser humano se tirarmos tudo dele?” A partir da mesma reflexão os dois grupos teatrais nos apresentaram peças muito distintas. Observem que a temática de Till data do Medievo, período profundamente marcado pela fé cristã, pelo medo e pela cisão entre corpo e alma, ao passo que os Satyros se propõem a discutir o pós-homem, ou seja, a possibilidade de transformação física e, claro, do próprio ser que é decorrente desta. Como na Idade Média, corpo e alma travam um embate, assumir um corpo e suas ações é questionar a sociedade, seus postulados e, sobretudo, definir um Eu em relação a um Outro, uma alteridade fada ao conflito.
Mas enquanto o Galpão optou por retomar a estética medieval, mesclando os gêneros, o riso ao lírico, os Satyros se posicionam no extremo oposto, trazendo o máximo de tecnologia para a cena, sem medo de explorar todos os conceitos da Arte Contemporânea, desde a frivolidade da arte como mercado, como expressão irônica dessa relação homem/consumo, ao desvelamento do interdito, a nudez dos corpos transformados e os sites de pornografia.
Para alguns dos que acompanham a XXII Semana, a estética apresentada pelos Satyros é uma estética de choque, mas a nudez em Hipóteses para o amor e a verdade não é nem erótica, nem chocante, ao contrário, ela é a expressão da dor, da dor do diferente, do que não é aceito, do preconceito e da luta em busca de afeto, como em Till e como em Escuro, uma das peças mais ousadas dessa XXII Semana Luiz Antônio.
Escuro, das Cias Hiato e Simples de Teatro, não apresentou nudez física no palco, digo física porque não havia nenhum corpo pelado em cena, mas as almas e as relações foram despidas. Se os Satyros ousam com a presença dos transexuais em cena, Escuro ousa tanto ou mais, expondo outros corpos/seres marginalizados, estigmatizados e vítimas de preconceitos, mas a ousadia maior é estética, na contra mão das propostas contemporâneas, na qual o feio, o sujo, o escatológico, o underground é a tônica, o maior arrojo das Cias Hiato e Simples foi explorar o belo, a delicadeza, a poesia visual e dramatúrgica.
A partir de Till, passando por Escuro até Hipóteses para o amor e a verdade tivemos uma verdadeira aula sobre como o tema das relações humanas, do preconceito e da incomunicabilidade pode ser explorado e, sobretudo, como a presença dos corpos dos atores em cena emprestando sua técnica, seus gestos, seus sentimentos às personagens nos faz por alguns momentos esquecer a distancia entre o Eu e o Outro e nos possibilita realmente um diálogo, um encontro com o Ser Humano, ainda a essência de toda obra de arte.

Flávia Regina Marquetti

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