Prólogo

O ATOR E AS CIDADES

O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

.....................................

A arte do ator é feita de chegadas e partidas, a cada cidade uma nova experiência, em cada uma ele deixa um pouco de si e leva um pouco de tudo: rostos, risos, lágrimas, histórias, vivências, sensações. O trânsito, a mobilidade é a pátria do despatriado ator, vagar entre culturas, costumes e tempos diferentes é sua sina e paixão, pois ele se compõe e recompõe de cada momento. Tolo é aquele que pensa que a arte morre, tem seu lugar determinado por marcas geográficas, por cronologias... a arte foge de todo e qualquer enquadramento, não cabe no mapa, pois é cigana, não (re)conhece fronteiras, ela se constitui a partir do trânsito, do vagabundear do ator, seu veículo. Em sua carne e expressões ela ganha corpo e reflete os rostos de todos os homens de todos os tempos, arguta e criativa, ela mimetiza o mundo e esse seu habitante conturbado, o Homem e é adsorvida por ele.

A 24ª Semana Luiz Antônio traz a criativa itinerância que brota da releitura de grandes clássicos, de personagens que vagaram pelo mundo e foram incorporando os novos tempos, as novas cidades e estéticas. Em seus corações pulsam as lembranças da origem, mas em suas vestes o novo, o arrojado trânsito por locais insondáveis. E como diz o poeta:


a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa.

Ferreira Gullar



Evoé! e muita Lu(i)z...



Flávia Marquetti



quarta-feira, 23 de junho de 2010

Hipóteses para o Amor e a Verdade - (Os Satyros - São Paulo / SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

O espetáculo d’Os Satyros, Hipóteses para o Amor e a Verdade, poderia também se chamar Ensaio para a Solidão, digo isso porque em meio à grande ”parafernália” eletrônica utilizada na peça fica evidente a dor, a solidão e o desejo de amor do Homem.
Com um espetáculo interativo, que brinca com o público e seus celulares, que joga com a internet e seus chats e sites de pornografia ou de relacionamentos, o grupo soube aproveitar os diversos meios de comunicação para ilustrar a incomunicabilidade.
Mesclando momentos de profunda tensão, como na cena da prostituta embalada por papel filme pelo cliente apaixonado, que quase a asfixia para que diga o que quer; a cenas divertidas, como a da travesti que é guia turística das micro-realidades (deliciosa), a do gerente de fábrica que se confessa amante da luxúria, a peça não chega a ser distensa, pois mesmo nestes momentos mais leves, em que o riso brota, o texto é denso, os corpos, os gestos mostram a urgência desses personagens em se sentirem vivos num espaço que cada vez mais perde a humanidade.
Com o cenário composto por computadores, telões, manequins pintados e suspensos por correntes e até uma singela cortina de argolinhas, muito funcional, por sinal, os espectadores são convidados a se misturarem a esse mundo do centro velho de São Paulo, compondo junto com os personagens um mundo estranho, no qual ninguém ama ninguém e nem se comove com nada, mas que toca, incomoda, enternece. Um belíssimo espetáculo e reflexão sobre o homem, ou como querem os Satyros, o pós-homem.
Quase me esquecia, o detalhe delicado do bilhete em pedacinho de papel que o gerente de fábrica oferece ao público, com exceção dos escolhidos e seus mais próximos, não ficamos sabendo o que está escrito nele e isso é o melhor, pois cada um de nós escreveu ali alguma palavra ou mensagem que talvez oferecesse ao outro.

Flávia Regina Marquetti



Roleta Russa - (Cia Aindasemnome - Ribeirão Preto / SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

A Cia Ainda Sem Nome, de Ribeirão Preto, buscou em Roleta Russa um jogo limite, no qual as personagens, no auge da sua violência e frustração, matam o que poderíamos chamar de poder, seja ele um representante da família, do clero, um chefe de serviço, ou outra forma qualquer. O tema que poderia ter sido melhor explorado rendeu uma peça morna, com lições de moral em algumas partes. Em um cenário todo quadriculado em branco e preto e com figurinos também nestas cores, que criam uma bela imagem, Roleta Russa deixou de explorar a idéia primeira que seu visual sugere: o Jogo de Xadrez, lembrando que este é um jogo de guerra. Sem usar de uma marcação característica do jogo, que poderia render muito, não só plasticamente, mas também à proposta, a Cia preferiu uma marcação e gestualidade a meio termo, corpos rijos, mas que não chegam a ser as peças do tabuleiro, que poderiam ser movidas por mãos invisíveis.
A música é o sexto integrante do grupo, longa, com letra que se funde à temática da peça, mas que não cria o efeito esperado, de comentar a cena nos moldes de Brecht, ação que esperei dela. O título também me pareceu perdido, pois o “jogo” de roleta russa é na verdade um misto de suicídio e assassinato, já que os que disputam voltam a arma para si e caso não ocorra o disparo é passada ao próximo e assim sucessivamente, até que um dos “jogadores” morra diante dos demais, esta idéia está ausente da peça, pois todos se voltam contra um personagem específico, com os demais alternando a possibilidade do assassinato, talvez os autores tenham pensado que esta troca da arma entre os personagens sugerisse a roleta russa, o que, no meu caso não ocorreu, fiquei torcendo para que o jogo de acusação iniciado realmente se voltasse aos demais personagens, mas também não correu. Faltou bala na agulha para Cia Ainda Sem Nome.

Flávia Regina Marquetti

terça-feira, 22 de junho de 2010

5º CRUZAMENTO – Inadequada - 4ª postagem

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
Meu caro amigo, a culpa não é nem sua nem da peça, como disse antes, gosto é algo particular e cada um de nós tem um. Minhas colocações no Blog não são para convencer ninguém de que algo que é ruim é bom, pelo contrário, eu apenas tento discutir as propostas de um ponto de vista técnico, quando percebo que há uma proposta e que ela foi executada com correção, comento os “achados” desta, pois como disse ao Cassiano, minha função aqui não é dizer se eu gostei ou não, isso cabe a vocês, eu apenas faço uma leitura, que não se pretende única, das peças.


Flávia Regina Marquetti

4º CRUZAMENTO – AGORA NA ESQUINA DE ESCURO

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
Respondendo a Nany, muito bem colocada a sua observação Márcia, a atriz que fez a personagem Flávia teve um esmero incrível na construção da personagem, gestos, voz, impecável, o que nos mostra um trabalho árduo de observação e ensaios. Outro trabalho minucioso e divertido e que cativou a todos foi a da personagem Aline, ou ainda do menino, que como a Secretária era mais “natural”, mas primorosos, criando um equilíbrio entre as diversas dificuldades de expressão.
Por falar na gestualidade, o grupo todo apresentou uma sincronia na repetição de alguns gestos e mesmo no que chamei de ciranda das cenas maravilhosa. Como tudo no espetáculo de um cuidado minucioso, primoroso, uma jóia. Eu costumo fazer destaques de coisas que me chamam a atenção nas peças, nesta não consegui, o conjunto todo de Escuro é o destaque.
Quanto ao que você postou Zé Guilherme, muito boa leitura, toda as cenas da peça são arranjadas de forma a que as vejamos de vários ângulos, mas têm algo de imobilidade, de instantâneo, como fotos, que muito bem podem ter sido feitas pelo personagem do fotógrafo, mesmo porque havia uma ou várias fotos que estavam em cena, na mão das demais personagens, que nós não vimos e que bem podem ser as cenas mostradas.
Sua leitura das fotos também me levou a outra reflexão. Eu havia visto no título, Escuro, a idéia de imobilidade, de medo, fragilidade e até desespero que nos acomete quando ficamos em um local sem qualquer iluminação, mas com a sua sugestão me veio também a da câmara escura, usada para revelar as fotografias feitas com máquinas como a que portava o fotógrafo e por oposição o que não é visto nos é revelado na peça.
A idéia da circularidade do texto, que vai como numa espiral “apertando” as informações para chegar à mesma cena do início é excelente, sobretudo, porque deixou o final em aberto, havia vários personagens que poderiam ter sofrido o “acidente” na piscina, com exceção da Secretária que está ao microfone. A teia dramatúrgica criada por Leonardo Moreira é mágica, pois consegue não ser cansativa e nos prende sem que sintamos o tempo, por incrível que pareça, ela durou 1h30. Um trabalho de joalheria, é a palavra que melhor define Escuro, sinto muito pelos que não viram.

Flávia Regina Marquetti

3º CRUZAMENTO – ainda na esquina da Inadequada

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
Pois é Fúlvia, você pode não achar nada de legal na peça, mas como alguém que estuda teatro e faz teatro tem que ao menos respeitar a busca de uma estética nova, paciência se ela não agradou ao público e é mais uma discussão teórica do que espetáculo propriamente dito. Toda inovação causa estranhamento e desconforto, para não dizer, má recepção, faz parte do risco. Nós temos a tendência de gostar do que já conhecemos e isso é muito natural, o que foge terrivelmente do nosso universo cria impacto e é difícil de assimilar, todas as estéticas passaram por isso, como nós estamos no “fim” dessa longa linha de experimentos, as propostas já chegaram conhecidas, amadurecidas, transformadas e a gente acostumada a elas. Se ninguém tivesse ousado mudar nós não teríamos saído do gripo primal. Valeu a postagem.



Flávia Regina Marquetti

2º CRUZAMENTO

Respondendo ao Cassiano e a Zandali. Vou ver o texto da Claúdia Schapira, que infelizmente não conheço, não sei se dará tempo durante a SLAMC, mas com certeza a gente vai comentar ele um dia desses nas ruas.
Cassiano, lembro bem do espetáculo do XPTO, com um texto do Lorca, que nenhum de nós gostou, lembro que comentei a proposta, mas que o grupo não a havia atingido por n fatores que não cabem aqui.
No caso da Inadequada acredito que é outra coisa, não sei se é só a minha leitura do espetáculo e não a proposta consciente do grupo, mas vá lá, é uma leitura que o espetáculo propiciou. O que o incomodou e a outros é a fragmentação da cena, essa pulverização que não permite ter, se quer, um fio condutor. Qual era a “história” da Inadequada? Nem eu respondo essa, o tema era futebol, mas não tinha história, nosso gosto teatral, no qual me incluo, pede um desenvolvimento dramático no qual vemos não só o esboço de um personagem, mas aquela densidade do teatro que faz com que naqueles minutos toda a existência se revele numa cena e isso não há na proposta da Inadequada.
Agora, se você quer que eu me posicione do tipo gostei ou não gostei do espetáculo, que é outro tipo de julgamento e que nem caberia a mim aqui, eu me posiciono... não sei se gostei ou não, é diferente e isso sempre me atrai, você sabe, gosto de quem se arrisca, mas só vi esse espetáculo neste formato até hoje e com apenas um espetáculo não dá para ter um critério de se gosto ou não, talvez a gente se encontre mais pra frente, vendo outros espetáculos deste tipo e eu chegue a conclusão que não satisfaz o desejo de teatro almejado por mim, talvez, mas para isso preciso ver muitos outros espetáculos da própria Cia Inadequada e de outras companhias que usem a mesma linguagem fragmentada. Mas o espetáculo valeu, com certeza, por despertar esses cruzamentos.
Flávia Regina Marquetti

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Escuro (Cia Hiato e Cia Simples - São Paulo / SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

Escuro (Cia Hiato e Cia Simples de Teatro – SP)

A peça de hoje, Escuro, da Cia Hiato e Cia Simples de Teatro de São Paulo, foi uma deliciosa surpresa, digo isso porque fazer uma peça onde os personagens apresentam deficiências físicas e mesmo mentais nos leva a imaginar algo denso, pesado e as duas Cias nos pegam exatamente aí, com uma peça leve, divertida, com interpretações impecáveis, com figurinos, cenário e iluminação ao mesmo tempo simples e requintados, poderíamos dizer líricos.
Usando uma palheta que vai do azul ao verde, mais o branco e o negro, o figurino não só estabelece o elo necessário entre os seres e a água da piscina imaginária, como nos remete à idéia de tristeza, solidão e esperança, na vida desses delicados peixes mergulhados na piscina branca. O uso do branco para a piscina corrobora ainda mais para a idéia de amplidão e, portanto, de desamparo desses seres quase imaterias que flutuam no vazio de uma existência difícil.
O uso dos aquários enquanto um signo da piscina é magistral, pois não só dá a dimensão da água, mas também do confinamento e de serem os personagens “animais” em exposição, peixes exóticos devido às suas deficiências.
Para os que não puderam assistir a Escuro, lendo o que escrevo talvez tenham uma idéia errônea sobre a peça, embora quase todos os personagens apresentem algum tipo de problema visual, de fala ou auditivo, a peça transcende este limite e com uma dramaturgia deliciosa nos faz entrar na ciranda dos fatos e ver que todos nós fazemos parte desse universo, que as deficiências ali apresentadas são só uma divertida maneira de nos fazer ver a grande deficiência do ser humano: a incapacidade de comunicar seus sentimentos e de lidar com o diferente.

Flávia Regina Marquetti

1º CRUZAMENTO

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria
Alguém veio me dizer hoje que “não achou tão legal a peça da Cia Inadequada, pois tudo estava muito disperso, não era como as outras, que prendiam a atenção” e o Cassiano postou também um comentário sobre ela, respondo a ambos.
Pois bem, a proposta estética da Cia Inadequada é bastante diferente das demais peças vistas até aqui na Semana, mesmo com a presença de peças de rua como Till e A farsa do Advogado Pathelin. Se nas duas anteriores, como na Inadequada, os atores usam do improviso, têm de lidar com a intervenção não programada do público, eles, ao contrário da Inadequada, possuem um foco, um núcleo dramático que se concentra em um único ponto, o “palco” e sua ação, isso se deve ao fato de serem peças cujas estéticas datadas do Medieval, visavam capturar o olhar do público para a cena e a mensagem aí veiculada.
No caso da Inadequada Futebol Clube a idéia é outra, todos os que já foram a um estádio de futebol sabem que a torcida é parte integrante do espetáculo, mesmo em jogos como os da copa do mundo a torcida às vezes rouba a cena, até mesmo pela TV; quando pensamos em jogos menos interessantes, aí sim é que a torcida ganha a frente e inverte a relação de ver e ser visto. Dou um exemplo meu, embora não goste de futebol, quando adolescente ia aos jogos da São Manuelense, time da minha cidade natal, que pertencia à última divisão da última divisão naquela época, o jogo sempre era ruim, os jogadores mais chutavam o campo que a bola, pois bem, e porque a gente ia? Ora para ver a torcida da São Manuelense, um espetáculo a parte, divertido, engraçado e que infernizava a torcida adversária, geralmente acabando em pancadaria. É esse espetáculo disperso, que mescla a necessidade de dividir a atenção ora no centro do palco/gramado ora nos lances que ocorrem fora dele é que a Cia Inadequada trouxe.
Durante o espetáculo da Cia Inadequada, há todo momento havia algo acontecendo no “centro” da representação, mas as conversas dos atores com o público (quando apresentavam as crônicas do Nelson Rodrigues) muitas vezes roubavam a cena, pois os risos e manifestações dos ouvintes, vistos de longe pelos demais presentes, aguçava a curiosidade, uma expectativa em descobrir o que estava acontecendo ali... e como as reações variavam de acordo com o grupo e o texto, nós nos movíamos como torcedores que percebem algo acontecendo além da partida, do outro lado da arquibancada, com pescoços erguidos, caras de suspense e até o desalento de não ver surgir a tão esperada “briga” que se anunciava em nossa imaginação.
O espetáculo da Cia Inadequada propõe que se assista não só ao palco, mas também a platéia, como num jogo, no qual a atenção do campo às vezes sobe para arquibancada e vice-versa, interagindo, nada mais adequado para quem escolheu como tema o espetáculo do futebol, proposta cênica e tema em perfeita sintonia, melhor que muito time por aí.
Deixo claro que tudo isso é uma leitura técnica, minha função aqui no Blog, mas o público é o melhor juiz, pois o espetáculo é feito para ele e o gostar ou não de determinada estética ou condução da dramaturgia é direito pleno de todo espectador.


Flávia Regina Marquetti

Inadequada Futebol Clube (Cia Inadequada - São Paulo / SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

Nada mais adequado em dia de vitória do Brasil na copa do que a apresentação da Cia Inadequada de São Paulo, com uma proposta interativa que aproveitou a alegria da torcida, reunida diante do Teatro Municipal, para fazer a festa da Inadequada futebol clube. Com muito jogo de cintura, os atores da Inadequada driblaram os “adversários”: aqueles que já tinham comemorado o suficiente para duas copas, as famosas vuvuzelas (que Nelson Rodrigues deveria conhecer como cornetas, mas com certeza adoraria o novo nome... já que permite um bom trocadilho), o barulho dos carros e com esplêndidos olés conquistou o público que foi para vê-los e os que nem sabiam do que se tratava.
Com crônicas de Nelson Rodrigues sobre o futebol, muito bem escolhidas, o timão da Inadequada mostrou muita raça em campo, sabendo aproveitar a grande paixão do brasileiro e toda a codificação de gestos e expressões que compõem esse universo em arte. Desprovidos de cenário, iluminação, objetos cênicos, os atores contam apenas com seus corpos e indumentária, um simpático uniforme de futebol, com meias de várias cores e nas costas de cada participante números que formam a palavra GOOL!, de ponta-cabeça, grande sacada. A Inadequada conseguiu, com esses poucos recursos, um belo espetáculo.
Flávia Regina Marquetti

domingo, 20 de junho de 2010

Pocket Show Maldito (Show com Os Cubanista)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

Sai de Si (Cia Arte & Performance - Araraquara / SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria


A proposta da Cia Arte & Performance tinha a irreverência e frivolidade do contemporâneo que apontei como falta na apresentação da Ditirambo Cia de Dança Contemporânea, mas infelizmente a resolução cênica não atingiu o esperado.
Quando se fala de frivolidade na arte contemporânea está se falando de propostas que não coloquem a arte num pedestal, como a da Cia Arte & Performance, de explorar o banheiro e suas várias funções na vida do homem, mas isso não quer dizer que se deva esquecer a qualidade do produto. Faltou além de técnica, uma melhor amarração entre a idéia original, seus desdobramentos e um aprofundamento no tema. As cenas de dança não contribuem em nada para o texto, algumas boas piadas que poderiam ter surgido, como no caso dos escritos de banheiro, ficaram prejudicadas pelo fato de a platéia não conseguir ler o texto, coisa banal de se resolver, já que se usou recursos de mídia; o mesmo ocorre com a cena de convidar uma jovem da platéia para ir ao banheiro, é notório que as mulheres vão em grupo ao banheiro, mas parou aí a idéia, ela não teve uma continuação, poderia ter sido feita uma conversa lá atrás na coxia que o público estaria ouvindo, e, finalmente, se revelaria o porquê delas irem juntas ao banheiro e assim outras tantas coisinhas que ficaram sem o acabamento e o desenvolvimento necessário para que Sai de Si justificasse o título.
Um banheiro bem família, tirando a morte, não vimos ninguém se drogar, amar, se prostituir e tantas outras coisas que ocorrem em banheiros, mesmo o ato de despir-se, que é mais característico de todo e qualquer banheiro ficou a meio termo, comportadamente vestido, entendo que na fragilidade do espetáculo apresentado não caberia a nudez, mas então, porque fazer referência a ela. Em suma, ninguém saiu de si neste espetáculo, quem sabe em um próximo o espetáculo ganhe novos contornos, melhores textos e sai de si realmente.
Em tempo, existem alguns achados muitos bons, como a sequência de imagens de banheiros, a escolha da indumentária e elementos cenográficos, ou ainda o de cantar sob o chuveiro com as toquinhas de banho, mas por hora, são só isso, achados. Uma pena.

Flávia Regina Marquetti

sábado, 19 de junho de 2010

A Farsa do Advogado Pathelin (Grupo Rosa dos Ventos - Presidente Prudente/SP)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

Maistre Pierre Pathelin é uma farsa que remonta às festas dos bufões e dos agressivamente chistosos menestréis, encenada pela primeira vez em 1465 ela ainda guarda toda a vitalidade, sobretudo quando o Grupo Rosa dos Ventos empresta-lhe toda a sua garra.
Como nas feiras de Ruão, o fio condutor dos atores é a história do Mestre Pierre Pathelin, um advogada charlatão, que vem recheada de piadas e brincadeiras grosseiras (bem no espírito das farsas da Idade Média), canções, técnica circense, música ao vivo (destaque para a “banda” composta por um elemento, Robson Toma, que confere todo um colorido à ação), além de muita energia e irreverência de todo o grupo.
No espetáculo da Praça Pedro de Toledo, a criatividade e a presença de espírito dos participantes ficaram evidentes, graças à intervenção de um andarilho, que tentou roubar a cena, mas foi batido pelo quarteto. Essa espirituosidade é imprescindível para a realização de espetáculos em praça, sem ela todo o projeto naufraga, o que é claro não ocorre com o Grupo Rosa dos ventos.
O Grupo, divertido e muito à vontade, foi um espetáculo já na passagem de som, sorte de quem chegou cedo e pegou a “primeira parte” desse improvisado espetáculo. O cenário, os figurinos e maquilagem dão o arremate nesta gostosa farsa, tudo aparentemente muito simples, mas de funcionalidade perfeita para a condução da peça e para o riso da platéia.
Para os que viram o Grupo Galpão, ontem, e o Grupo Rosa dos Ventos, hoje, pode se considerar um felizardo, pois em menos de 48 horas pode experimentar as delícias do teatro da Idade Média, sem os seus riscos. Estéticas bem diferentes, que mantiveram nos espetáculos a essência das propostas Medievais, ao mesmo tempo, que as contextualizaram para o público de hoje.

Flávia Regina Marquetti

è.Change (Ditirambo - Araraquara / SP)

è.change
O segundo espetáculo da noite de abertura da Semana Luiz Antônio, è.change, da Ditirambo Cia de Dança Contemporânea, trouxe uma homenagem à diretora, bailarina e coreógrafa Pina Bausch, com forte referência ao Cabaret Müller, propõe uma reflexão sobre as “trocas” afetivas.
Estreiando o espetáculo na Semana, a Ditirambo, mostra a busca por uma linguagem corporal que expresse as novas relações do homem, aliando a esta um texto didático/explicativo sobre as novas propostas de relacionamentos.
Sem o amadurecimento que o espetáculo deve atingir, a Ditirambo, esboça algumas ousadias, mas ainda sem a convicção do gesto profundamente refletido, como quando os bailarinos exploram o obsceno, muito sutil, ficando a meio termo entre o choque e o aceitável.
Talvez uma boa dose de humor e fina ironia contribua para que o espetáculo ganhe o ar contemporâneo buscado pela Ditirambo, pois como muito bem falou o prof. Jorge Coli, em sua palestra no Território da Arte, uma das grantes propostas da arte comtemporânea é a frivolidade, o não se levar a sério a arte, ela, como todo o resto (e aí entra a proposta dos relacionamentos modernos) é ganho, está ligada ao mercado. O texto lido durante a apresentação explora exatamente isso, mas faltou essa frivolidade no trato dos corpos, ainda muito sérios e crentes na transcendência dessa arte.
è.change tem um belo caminho à sua frente e tenho certeza que o espetáculo ainda vai crescer muito.
Flávia Regina Marquetti

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria

Till, a saga de um herói torto (Grupo Galpão - Belo Horizonte)

Foto: Fabricio Guerreiro/Assesoria


Till em terras de Macunaíma

A Semana Luiz Antônio começou com o brilho que só os que amam o teatro podem conferir, Till, a saga de um herói torto, do Grupo Galpão de Belo Horizonte foi uma apresentação irretocável, divertida e que trouxe para a praça todas as “estrepolias” de um mundo Medieval com sabor de Brasil.
O universo do Teatro Medieval, com suas Farsas e Moralidades é a base para Till, numa disputa entre Deus e o Diabo, bem ao sabor do medievo, o zombeteiro Till (tradução literal de Eulenspiegel) surge como “marionete” ou palco para disputa entre esses dois grandes poderes.
Mas porque encenar hoje uma peça Medieval?
Ficou bastante evidente aos que assistiram ao espetáculo ontem que o Grupo Galpão se fez esta pergunta e achou não uma, mas várias respostas para a questão. Num mundo de trapaças e falcatruas, de espertalhões e aproveitadores só o riso, a ironia pode realinhar uma rota que parece perdida. O universo de Till nos é muito próximo, nos faz lembrar de Macunaíma e nos oferece um espelho onde vemos retratada a malandragem tão cara ao nosso teatro desde Pena até Osvald e Luiz Antônio e, ao mesmo tempo, um lirismo e delicadeza só perceptível no Grande Teatro, aquele que, independente da estética, nos revela o que há de mais importante no homem, a poesia, o sonho. Destaque nesse sentido para o delicioso trio de mendigos cegos da peça, alegoria do próprio ser humano e suas cisões.
Mesclando as linguagens presentes no Teatro Popular, com seu humor simples e jogos com o público, e no Teatro Medieval, com seu tom narrativo e didático, que mais tarde Brecht vai reutilizar, o uso de recursos cênicos como alçapões, bombas de fumaça, a presença sedutora do Diabo em cena e a respeitosa ausência de Deus e outros efeitos teatrais bem ao sabor do período, o Grupo Galpão apresenta uma releitura de Till, que guarda o sabor do teatro religioso medieval, mas com um tempero bem nosso, de nossos ditos e referências modernas.
As músicas, tocadas em cena pelos integrantes, a agilidade e colorido do espetáculo, o uso de um cenário, iluminação, maquilagem e indumentárias magistralmente escolhidos e de uma funcionalidade cênica característica do Galpão, aliada a interpretações magníficas, nos transportaram no tempo, para as grandes festas religosas realizadas nas praças da Idade Média, mas também nos fizeram refletir sobre quão pequena é a distância entre Till e sua falta de consciência e o homem moderno.
Como as Moralidade, Till deixa uma mensagem sobre o homem e sua possível transformação, mas acima de tudo nos deixa a crença na Arte, no Sonho, no Teatro como expressão do que há de melhor no Homem.

Flávia Regina Marquetti









Seguidores